Paciente de 68 anos, febril, taquipneico, PAM de 52 depois de um litro e meio de cristaloide. Você já sabe o que vai fazer. Vai pedir noradrenalina.
E aí começa a parte que ninguém ensina direito.
Quantas ampolas? Em quanto soro? Glicosado ou fisiológico? Começa em quantos mL por hora? Sobe de quanto em quanto? Pode correr no jelco do braço ou tem que esperar o acesso central? E quando o paciente melhorar, tira como?
A noradrenalina é provavelmente a droga vasoativa mais prescrita do plantão e uma das que mais gera insegurança na hora de operacionalizar. Não porque a indicação seja difícil. É porque a distância entre “está indicado noradrenalina” e “a bomba está correndo na dose certa, na via certa, com a diluição certa” é grande, e essa distância quase nunca aparece nas diretrizes.
Este texto percorre essa distância inteira. Da farmacologia até o desmame.
O que a noradrenalina é
Noradrenalina é uma catecolamina endógena. O corpo produz ela nos terminais simpáticos pós-ganglionares e na medula adrenal. O que a gente injeta é a mesma molécula que o sistema nervoso simpático usa para manter a pressão todo dia.
Ela é metabolizada por duas enzimas, a monoaminoxidase (MAO) e a catecol-O-metiltransferase (COMT), além da recaptação pelos terminais nervosos. O resultado é uma meia-vida muito curta, abaixo de 2,5 minutos.
Guarde esse número. Ele explica três coisas que você faz na prática sem pensar:
- Por que noradrenalina só existe em infusão contínua, nunca em bolus de manutenção.
- Por que a resposta ao ajuste de dose aparece em minutos.
- Por que, no desmame, você não precisa esperar meia hora para saber se o paciente aguentou a redução.
Os receptores
| Receptor | Efeito | Peso clínico |
|---|---|---|
| Alfa-1 | Vasoconstrição arterial e venosa | É o efeito principal |
| Beta-1 | Aumento de contratilidade | Existe, é discreto, e importa mais do que se pensava |
| Beta-2 | Vasodilatação | Efeito mínimo, sem relevância prática na dose usual |
A leitura curta: noradrenalina é um vasoconstritor com um pouco de inotrópico dentro. Não é o contrário.
Por que ela funciona: três efeitos, não um
A explicação de corredor é “noradrenalina aperta o vaso e sobe a pressão”. Está certa, mas é a menor parte da história.
1. Vasoconstrição arterial
Aumenta a resistência vascular sistêmica e eleva a PAM. É o efeito que você vê no monitor e o que todo mundo lembra.
2. Venoconstrição: o efeito que quase ninguém explica
Este é o mais interessante e o que muda a forma de raciocinar.
O sistema venoso é um reservatório complacente. Uma parte do sangue que está lá dentro não gera pressão nenhuma contra a parede do vaso: é o chamado volume não estressado. Ele está no sistema, mas está “parado”, sem contribuir para o retorno venoso.
Quando a noradrenalina age nos alfa-1 dos vasos de capacitância, ela espreme esse reservatório e converte volume não estressado em volume estressado. Isso aumenta a pressão sistêmica média de enchimento (Pmsf), que é o gradiente que empurra o sangue de volta para o átrio direito.
Traduzindo para a beira do leito: a noradrenalina recruta volume que já estava dentro do paciente. Ela aumenta pré-carga sem você pendurar mais uma bolsa.
Isso foi medido em humanos. O grupo do Monnet e do Teboul demonstrou em choque séptico que a noradrenalina eleva a pressão sistêmica média de enchimento e aumenta o retorno venoso, que administrada precocemente aumenta pré-carga e débito cardíaco em pacientes com hipotensão ameaçadora à vida, e que ela reduz a dependência de pré-carga avaliada pela elevação passiva de pernas.
É por isso que “dar volume antes de começar a nora” não é uma verdade absoluta. Em muitos pacientes, a nora é parte da otimização da pré-carga.
3. Inotropismo discreto
O efeito beta-1 existe e não é decorativo. Um estudo de Hamzaoui e colaboradores mostrou efeito inotrópico da noradrenalina na fase precoce do choque séptico humano.
Isso ajuda a entender por que a noradrenalina se comporta bem no choque cardiogênico, onde a intuição diria que um vasoconstritor puro pioraria a pós-carga.
O que ela não faz de graça
Nada disso vem sem custo. Os efeitos adversos são dose-dependentes: arritmias, isquemia digital, isquemia mesentérica e isquemia miocárdica. E extravasamento pode causar necrose de pele.
Ou seja, a meta não é “manter o paciente na nora”. A meta é usar a menor dose que garante perfusão, pelo menor tempo possível.
PARTE 1 — QUANDO USAR
Choque séptico: primeira linha, sem discussão
A Surviving Sepsis Campaign 2026 é direta: para adultos com choque séptico, recomenda-se noradrenalina como agente de primeira linha em relação a dopamina, adrenalina ou selepressina (recomendação forte; certeza alta para dopamina, baixa para adrenalina e selepressina).
E também em relação a vasopressina ou angiotensina II, dessa vez com recomendação condicional.
Por que ela ganhou essa posição? Por dois ensaios que vale conhecer pelo nome.
SOAP II (De Backer, NEJM, 2010) randomizou 1.679 pacientes com choque para dopamina ou noradrenalina. Não houve diferença significativa de mortalidade em 28 dias (52,5% com dopamina vs 48,5% com noradrenalina; OR 1,17; IC95% 0,97–1,42; p = 0,10). Mas houve mais eventos arrítmicos com dopamina: 207 eventos (24,1%) contra 102 (12,4%), p < 0,001. A maior parte era fibrilação atrial (20,5% vs 11,0%), e arritmias graves que obrigaram a suspender a droga do estudo foram mais frequentes com dopamina (6,1% vs 1,6%).
A leitura prática: mesma mortalidade, o dobro de arritmia. Não há motivo para escolher dopamina.
OptimaCC (Levy, JACC, 2018) comparou adrenalina e noradrenalina no choque cardiogênico pós-infarto. Foram randomizados 57 pacientes. A evolução do índice cardíaco foi semelhante entre os grupos, mas a maior incidência de choque refratário no braço da adrenalina (10 de 27, 37%, contra 2 de 30, 7%; p = 0,008) levou à interrupção precoce do estudo. A frequência cardíaca subiu significativamente com adrenalina entre a segunda e a 24ª hora, e permaneceu inalterada com noradrenalina.
Ou seja: no choque cardiogênico, a noradrenalina também é a escolha inicial na maioria dos cenários.
Quando começar: a discussão do “antes ou depois do volume”
Aqui a resposta virou mais nuançada nos últimos anos.
A SSC 2026 mantém a sequência clássica como padrão: para adultos com hipotensão induzida por sepse, sugere-se ressuscitação inicial com bolus de cristaloide seguida de suporte vasopressor se a hipotensão persistir (condicional, certeza muito baixa). Mas a ressalva é o que interessa: em pacientes com choque séptico instável, a administração concomitante imediata de vasopressores junto com o cristaloide pode ser justificada caso a caso. A presença de choque instável deve ser determinada pelo exame físico, e as características sugestivas incluem pressão arterial gravemente reduzida, pele mosqueada, aparência acinzentada, cianose ou queda de saturação, taquicardia e alteração do nível de consciência.
Traduzindo: se o paciente está muito mal, você não precisa terminar o bolus para começar a nora.
O ensaio que sustenta esse raciocínio é o CENSER (Permpikul, AJRCCM, 2019), um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 310 pacientes com sepse e hipotensão. A mediana de tempo entre a chegada ao pronto-socorro e a noradrenalina foi menor no grupo precoce (93 vs 192 minutos; p < 0,001). O controle do choque em 6 horas foi alcançado em 118/155 (76,1%) contra 75/155 (48,4%), p < 0,001. A mortalidade em 28 dias não diferiu: 15,5% vs 21,9% (p = 0,15). O grupo precoce teve menos edema pulmonar cardiogênico (14,4% vs 27,7%; p = 0,004) e menos arritmia de início recente (11% vs 20%; p = 0,03).
Repare no que o CENSER mostra e no que ele não mostra. Ele não provou redução de mortalidade. O que ele mostrou foi controle mais rápido do choque, com menos congestão e menos arritmia. É o suficiente para justificar não postergar, e não é o suficiente para prometer sobrevida.
Vale registrar também que a própria SSC 2026 lembra que o ensaio CLOVERS, que testou vasopressor precoce com estratégia restritiva de fluidos, não confirmou desfechos melhores.
Qual é o alvo de pressão
Este é o ponto onde muita gente titula no automático.
Alvo padrão. A SSC 2026 recomenda um alvo inicial de PAM de 65 mmHg em vez de alvos mais altos (recomendação forte, certeza moderada). A ressalva é honesta: na prática não é viável manter a PAM exatamente em 65, então uma faixa razoável (por exemplo, dentro de 5 mmHg) deve ser usada.
Idoso. Novidade de 2026: para adultos com choque séptico com 65 anos ou mais, sugere-se uma faixa inicial de PAM de 60–65 mmHg em vez de faixas mais altas (condicional, certeza baixa). A lógica é reduzir a exposição a vasopressor em quem tolera menos.
Neurocrítico. Aqui o alvo não é “PAM 65” e também não é um número redondo tirado do bolso. O que orienta é a pressão de perfusão cerebral (PPC = PAM − PIC). As diretrizes da Brain Trauma Foundation (4ª edição) recomendam PPC entre 60 e 70 mmHg (nível IIB) e pressão arterial sistólica ≥ 100 mmHg para pacientes de 50 a 69 anos, ou ≥ 110 mmHg para pacientes de 15 a 49 anos e acima de 70 (nível III). A mesma diretriz alerta, em nível III, contra tentativas agressivas de manter PPC acima de 70 com fluido e vasopressor, pelo risco de insuficiência respiratória.
Na prática: no neurocrítico com PIC monitorizada, você titula a PAM para atingir a PPC alvo. Sem monitorização de PIC, você trabalha com o alvo de sistólica. O que não faz sentido é assumir que todo neurocrítico precisa de PAM perto de 100.
O que a nora não resolve
Antes de subir a dose pela terceira vez, passe por esta lista. Ela existe porque hipotensão que não responde raramente é problema de dose.
- Hipovolemia não corrigida. A bula é explícita ao colocar a hipotensão por depleção de volume como contraindicação relativa, exceto como medida de emergência enquanto se repõe volume.
- Choque misto. Componente cardiogênico, obstrutivo ou hemorrágico junto. É por isso que o ultrassom à beira do leito entrou no consenso de choque refratário, como você vai ver adiante.
- Causa não controlada. Foco infeccioso sem controle, pneumotórax hipertensivo, tamponamento, hemorragia ativa.
- Erro de dose por rótulo. Este merece uma seção própria.
PARTE 2 — COMO USAR NA PRÁTICA
O erro que começa antes da diluição: base ou sal?
Esse é o detalhe que mais gera dose errada no Brasil, e ele acontece antes de você abrir a ampola.
A noradrenalina é comercializada como um sal. No Brasil, a apresentação mais comum é o hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL, ampola de 4 mL. O rótulo de alguns fabricantes traz “8 mg / 4 mL”.
Oito miligramas. Mas não são 8 mg de noradrenalina.
Cada ampola de 4 mL contém 8 mg de hemitartarato de norepinefrina, equivalente a 4 mg de norepinefrina base.
O que importa clinicamente, o que entra na conta de mcg/kg/min, o que define se o paciente está em dose alta ou baixa, o que é comparável com a literatura: é sempre a base. Se você calcular pelo sal, sua dose fica duas vezes maior do que a que você acha que está fazendo.
Isso não é preciosismo acadêmico. É problema reconhecido de segurança do paciente. Em 2024, a Society of Critical Care Medicine e a European Society of Intensive Care Medicine publicaram um position paper conjunto (Wieruszewski, Critical Care Medicine, 2024) exatamente sobre isso, apontando implicações para prática clínica, critérios de inclusão em ensaios e bancos de dados que reportam dose máxima de noradrenalina, e recomendando a padronização do relato em noradrenalina base. Serviços brasileiros publicam alertas internos sobre a mesma armadilha.
A regra de bolso: ampola de 4 mL = 4 mg de noradrenalina base. Ponto. Se o rótulo diz 8 mg, ele está falando do sal.
Como diluir
Por que soro glicosado
Esta é uma das poucas perguntas de diluição que tem resposta formal em bula.
A informação de prescrição do Levophed é explícita: adicionar o conteúdo de um frasco (4 mg em 4 mL) a 1.000 mL de glicose 5% ou de solução de cloreto de sódio que contenha glicose 5%, produzindo uma diluição de 4 mcg/mL. A glicose reduz a perda de potência por oxidação. A administração em solução salina isolada não é recomendada.
A mesma fonte orienta armazenar a solução diluída por até 24 horas em temperatura ambiente e proteger da luz, e evitar contato com sais de ferro, álcalis ou agentes oxidantes.
Duas consequências práticas que se perdem no corre-corre:
- Equipo fotossensível e troca em 24 horas. Não é firula de enfermagem, está na bula.
- Não misture com bicarbonato de sódio. Meio alcalino inativa catecolamina. Se você está fazendo bicarbonato no mesmo paciente, a nora precisa de via própria.
Uma nota de honestidade: fontes farmacêuticas terciárias registram que há dados sustentando estabilidade da noradrenalina em salina 0,9% em concentrações de até 16 mcg/mL, apesar do texto da bula. Na prática do plantão, se só existe SF disponível ou se o paciente tem hiperglicemia importante, você faz em SF. Só saiba que o preferencial documentado é o glicosado.
As três diluições que resolvem tudo
Todas em volume final de 250 mL, usando ampolas de 4 mL (4 mg base cada):
| Preparo | Noradrenalina base | Diluente | Concentração final |
|---|---|---|---|
| 2 ampolas (8 mL) | 8 mg | 242 mL de SG 5% | 32 mcg/mL |
| 4 ampolas (16 mL) | 16 mg | 234 mL de SG 5% | 64 mcg/mL |
| 8 ampolas (32 mL) | 32 mg | 218 mL de SG 5% | 128 mcg/mL |
A de 64 mcg/mL é a diluição padrão e é a que resolve a maioria dos casos. A de 32 é útil no início, em dose baixa, e é a mais amigável para acesso periférico. A de 128 serve para o paciente em dose alta ou com restrição de volume, porque entrega a mesma dose em menos mililitros por hora.
Atenção: trocar a concentração no meio do tratamento sem avisar a equipe é uma das causas clássicas de erro grave. Se mudar, mude junto com a prescrição, e sinalize em voz alta.
O restante que não é opcional
- Bomba de infusão. Não existe noradrenalina em gotejamento por gravidade. Droga de meia-vida de 2 minutos com vazão imprecisa é receita para oscilação de pressão.
- Via dedicada. Pelas incompatibilidades e porque qualquer flush ou bolus na mesma linha vira um bolus de vasopressor.
- Identificação da bolsa com concentração e data/hora do preparo.
Como titular
A dose
A faixa descrita na literatura é ampla, de cerca de 0,05 a 2 mcg/kg/min de base, com relatos de uso acima disso em choque refratário. A bula do produto de referência descreve uma taxa inicial de 8 a 12 mcg/min para restabelecimento da pressão em estados hipotensivos agudos, o que corresponde a algo em torno de 0,1 a 0,2 mcg/kg/min num adulto de 70 kg.
Mas, na vida real, ninguém prescreve uma dose fixa e vai embora. A dose é titulada. Você começa baixo, olha, e ajusta.
A tabela que economiza tempo
Diluição de 64 mcg/mL (4 ampolas em 250 mL), paciente de 70 kg:
| Vazão | mcg/min | mcg/kg/min |
|---|---|---|
| 5 mL/h | 5,3 | 0,08 |
| 10 mL/h | 10,7 | 0,15 |
| 15 mL/h | 16,0 | 0,23 |
| 20 mL/h | 21,3 | 0,30 |
| 30 mL/h | 32,0 | 0,46 |
| 40 mL/h | 42,7 | 0,61 |
| 50 mL/h | 53,3 | 0,76 |
| 60 mL/h | 64,0 | 0,91 |
| 70 mL/h | 74,7 | 1,07 |
A conta, se você quiser fazer para outro peso:
mcg/kg/min = (vazão em mL/h × concentração em mcg/mL) ÷ (60 × peso em kg)
O ciclo da titulação
Um esquema que funciona bem no pronto-socorro, usando a diluição de 64 mcg/mL:
- Comece em 5 mL/h (≈ 0,08 mcg/kg/min em 70 kg).
- Reavalie a pressão a cada 3 a 4 minutos. A bula orienta registrar a pressão a cada 2 minutos até atingir o alvo, e depois a cada 5 minutos.
- Não atingiu o alvo? Suba 5 mL/h. Passou do alvo? Reduza para 8, para 6, sem drama.
- Repita. Cada ajuste vira informação em minutos, porque a meia-vida é curta.
Não existe um esquema único de titulação validado. Alguns protocolos preferem incrementos de 0,02 mcg/kg/min por vez, o que em 64 mcg/mL corresponde a mais ou menos 1 a 2 mL/h. Passos de 5 mL/h são mais rápidos e mais fáceis de comunicar em ambiente de sala vermelha. Passos menores são mais suaves. Use o que o seu serviço padroniza.
Titular pelo número é metade do trabalho
A PAM é o alvo mais fácil de medir e o mais fácil de enganar você. Um paciente pode estar com PAM 68 e continuar mal perfundido.
A SSC 2026 aponta o caminho para não titular no escuro: sugere-se usar o tempo de enchimento capilar para guiar a ressuscitação, como adjunto a outras medidas de perfusão (condicional, certeza baixa), e sugere-se usar lactato seriado para guiar a ressuscitação em adultos com sepse e lactato elevado ou choque séptico (condicional, certeza baixa), com a ressalva importante de que a administração de fluido deve ser individualizada após o bolus inicial e o monitoramento do decremento do lactato, em vez de manter fluidos até a normalização.
Na prática, os marcadores que você combina com a PAM são:
- Tempo de enchimento capilar
- Lactato seriado (a tendência, não o valor isolado)
- Diurese
- Nível de consciência
- Temperatura e aspecto da pele, moteamento
- Saturação venosa central e gap de CO₂, onde disponível
E o monitor: a SSC 2026 sugere usar monitorização de pressão arterial invasiva ou não invasiva, com a ressalva de que a monitorização invasiva é indicada em pacientes com choque que requerem doses intermediárias a altas de vasopressor, doses crescentes ou múltiplos vasopressores, que precisam de coleta arterial frequente, ou cujas medidas não invasivas se mostram inconsistentes em avaliações repetidas.
Ou seja: não atrase a droga para passar a linha arterial, mas se o paciente está subindo dose, a linha arterial deixa de ser luxo.
Acesso periférico: pode, sim, com critério
Esta é a mudança de prática mais relevante da última década, e ainda tem serviço segurando noradrenalina esperando acesso central.
A SSC 2026 é clara: em adultos com choque séptico, sugere-se iniciar vasopressores por via periférica para restaurar a PAM em vez de retardar o início até que o acesso venoso central esteja garantido (condicional, certeza muito baixa). E é honesta sobre o que ainda não se sabe: os dados são insuficientes para recomendar duração de uso, dose ou via de acesso (calibre do cateter periférico ou localização anatômica). Cateteres de linha média não foram considerados.
O que os números dizem
A meta-análise mais recente e mais robusta sobre o tema saiu no JAMA Network Open em 2026, com 49 estudos e 33.060 cateteres.
A incidência agregada de eventos adversos menores foi de 2,6% para noradrenalina (IC95% 1,4%–4,7%), e de 2,3% (IC95% 1,5%–3,7%) considerando todos os vasopressores em conjunto.
E o dado que mais importa: apenas 1 evento adverso maior (um caso de necrose tecidual) foi relatado nos 43 estudos que usaram cateteres periféricos curtos, somando 29.596 cateteres, com incidência agregada de 0,0%. Em contraste, os 30 eventos de tromboembolismo venoso ocorreram todos nos 4 estudos que usaram cateteres de linha média, com incidência agregada de 1,4%.
O uso periférico evitou a passagem de cateter venoso central em 59,7% dos casos.
Isso confirma o que já vinha das revisões anteriores. A meta-análise de Owen (Critical Care, 2021) encontrou incidência agregada de eventos adversos de 1,8% em adultos, e 19 dos 23 estudos relataram nenhum evento adverso ou apenas reações teciduais locais leves. A revisão sistemática de Tian (2020) encontrou extravasamento em 3,4% dos pacientes, sem nenhum episódio relatado de necrose tecidual ou isquemia de membro, com duração média de infusão de 22 horas.
Os critérios que tornam isso seguro
As diretrizes não fixam critérios, mas a prática que gerou esses números é razoavelmente consistente:
| Item | Referência prática |
|---|---|
| Calibre | Cateter 20G ou maior |
| Local | Veia calibrosa proximal à mão, tipicamente antecubital. Evite dorso da mão, punho e articulações |
| Concentração | Diluições mais baixas são mais toleradas. Dados de segurança mais consistentes vêm de 64 mcg/mL ou menos |
| Dose | Doses baixas a moderadas. A literatura de segurança periférica se concentra em torno de até 15 mcg/min |
| Tempo | Uso de curta duração, tipicamente abaixo de 48 horas |
| Vigilância | Sítio visível, checado com frequência, nunca coberto por atadura opaca |
A regra que resume: o acesso periférico é uma ponte, não um destino. Se o paciente precisa de dose crescente, de tempo prolongado ou de múltiplos vasopressores, você programa a transição para acesso central com calma. O que não se faz é deixar o paciente hipotenso esperando o central.
Se extravasar
- Pare a infusão e desconecte o equipo, mas deixe o cateter no lugar inicialmente.
- Aspire gentilmente o que conseguir.
- Eleve o membro.
- Antídoto de referência: fentolamina. A bula orienta infiltrar a área o mais rápido possível com 5 a 10 mg de fentolamina diluídos em 10 a 15 mL de solução salina, com agulha fina, distribuindo pela área que se identifica pelo aspecto frio, endurecido e pálido. O bloqueio simpático produz hiperemia local imediata e evidente se a infiltração ocorrer dentro de 12 horas.
- Se não houver fentolamina, a literatura descreve alternativas: terbutalina 1 mg diluída em 10 mL de SF, infiltrada na área, e nitroglicerina pomada 2% aplicada topicamente sobre a região afetada.
- Documente e reavalie.
Cheque isso antes de precisar: fentolamina não está disponível em todo serviço no Brasil. Vale perguntar à farmácia do seu hospital o que existe em estoque para extravasamento de vasopressor hoje, e não às três da manhã com o braço do paciente branco.
PARTE 3 — QUANDO NÃO ESTÁ FUNCIONANDO
A ordem de escalonamento
A SSC 2026 organiza a sequência:
- Noradrenalina como primeira linha.
- Para adultos com choque séptico em doses crescentes de noradrenalina, sugere-se adicionar vasopressina (condicional, certeza moderada). A SSC 2021 registrava, na seção de prática dos painelistas, que a vasopressina costuma ser iniciada quando a noradrenalina está na faixa de 0,25 a 0,5 mcg/kg/min.
- Para adultos com choque séptico e PAM inadequada apesar de noradrenalina e vasopressina, sugere-se adicionar adrenalina (condicional, certeza muito baixa). Onde a vasopressina não está disponível, a adrenalina pode ser adicionada à noradrenalina isolada.
- Corticoide. Para adultos com choque séptico, sugere-se usar corticosteroides intravenosos (condicional, certeza baixa).
- Azul de metileno. Para choque séptico refratário com necessidade crescente de vasopressor, não há evidência suficiente para fazer recomendação sobre azul de metileno intravenoso. A ressalva do painel é reveladora: 69% dos painelistas nunca ou quase nunca usam azul de metileno como terapia de resgate.
E um ponto que costuma passar batido: a SSC 2026 sugere contra o uso de bicarbonato de sódio para melhorar a hemodinâmica ou reduzir a necessidade de vasopressor em adultos com choque séptico e acidemia láctica por hipoperfusão (condicional, certeza baixa). Se o plano era “fazer bicarbonato para a nora funcionar”, a evidência não apoia.
Quando o choque vira “refratário”
Até 2026, “choque refratário” era uma expressão sem definição. Isso mudou.
Em março de 2026, a SCCM e a ESICM publicaram um consenso Delphi conjunto, com 56 painelistas de 22 países e cinco rodadas, definindo critérios clínicos. A definição que saiu:
Choque séptico refratário é caracterizado por lactato persistentemente elevado e/ou tempo de enchimento capilar prolongado, em pacientes com choque séptico não responsivos a fluido, que requerem dose de noradrenalina base equivalente maior que 0,5 mcg/kg/min, e que são submetidos a avaliação por ultrassom à beira do leito quando se suspeita de choque misto.
Três coisas para levar dessa definição:
- O limiar é 0,5 mcg/kg/min de base, não de sal. Mais um motivo para não errar a conta da ampola.
- O limiar é consenso de especialistas, não um ponto de inflexão biológico comprovado.
- Antes de rotular como refratário, procure o componente misto. O ultrassom entrou na definição justamente porque muito paciente rotulado como choque séptico refratário tem, junto, disfunção ventricular, hipovolemia ou obstrução.
Vale o contexto de gravidade: uma coorte de pacientes com choque séptico em doses acima de 1 mcg/kg/min descreveu mortalidade de 60,4% em 28 dias e 66,3% em 90 dias, com metade dos óbitos ocorrendo antes do décimo dia.
PARTE 4 — COMO DESMAMAR
Aqui a literatura é fina, e vale dizer isso com todas as letras antes de dar qualquer receita.
A regra que vem antes de todas
Não se desmama vasopressor com a causa do choque em pé. Foco controlado, antibiótico adequado, volume ajustado, causa mecânica resolvida. Sem isso, você vai desmamar, o paciente vai hipotensar, e você vai voltar a dose. Perdeu tempo e ganhou instabilidade.
Desmame da noradrenalina isolada
Aqui a farmacologia trabalha a seu favor. Com meia-vida abaixo de 2,5 minutos, uma redução de dose já mostra o resultado em menos de 5 minutos.
O esquema prático:
- Reduza em passos pequenos, por exemplo 2 a 5 mL/h por vez, a cada 10 a 30 minutos.
- Reavalie em cerca de 5 minutos. Se a PAM caiu abaixo do alvo, se o enchimento capilar piorou, se o paciente ficou sonolento, volte para a dose anterior.
- Se tolerou, espere o intervalo e reduza de novo.
- Não suspenda abruptamente. A bula é explícita ao orientar que as infusões devem ser reduzidas gradualmente, evitando retirada abrupta.
Noradrenalina e vasopressina: qual sai primeiro?
Esta é a pergunta que mais gera discussão de corredor, e a resposta honesta tem duas camadas.
Camada 1: nenhuma diretriz recomenda uma ordem. A SSC não trata do assunto. A escolha fica com o médico.
Camada 2: os dados observacionais apontam para um lado. E vale conhecer o tamanho do efeito.
Uma meta-análise de dados individuais de pacientes (Hammond, Pharmacotherapy, 2019) reuniu seis estudos de risco de viés baixo a moderado, com 957 pacientes. Hipotensão clinicamente significativa ocorreu mais frequentemente quando a vasopressina foi retirada primeiro do que quando a noradrenalina foi retirada primeiro (60,7% contra 43,3%). Retirar a noradrenalina primeiro teve menor chance combinada de hipotensão clinicamente significativa (OR 0,22; IC95% 0,07–0,68; I² 87%). Não houve diferença em mortalidade de curto prazo, tempo de UTI ou tempo de internação.
Uma segunda meta-análise chegou a números parecidos: cinco estudos, 930 pacientes, com incidência de hipotensão em 24 horas de 31,8% quando a noradrenalina saiu primeiro contra 58,8% quando a vasopressina saiu primeiro.
Uma terceira, com desenho um pouco diferente, mostrou que o risco de hipotensão aumentou quando a vasopressina foi retirada primeiro (OR 3,4; IC95% 1,3–8,9; p = 0,01), mas a análise de sensibilidade revelou que o efeito apareceu nos quatro estudos com alto risco de viés (OR 5,4) e não apareceu nos cinco estudos com baixo risco de viés (OR 2,4; IC95% 0,6–8,4; p = 0,18).
Junte as três e a leitura fica assim: retirar a vasopressina primeiro está associado a mais episódios de hipotensão, mas não a mais mortalidade, e a qualidade da evidência não é alta.
A explicação farmacocinética, que é o que você realmente usa
Existe uma razão simples por trás disso, e ela é mais útil do que decorar a ordem.
A meia-vida da noradrenalina é relatada entre 2 e 6,8 minutos. A meia-vida da vasopressina é de cerca de 30 minutos.
Ou seja: quando você mexe na noradrenalina, o novo estado de equilíbrio chega em poucos minutos e você sabe rápido se o paciente tolerou. Quando você mexe na vasopressina, a queda do nível sérico é lenta, e a hipotensão pode aparecer depois de você já ter achado que deu certo.
A conduta prática que sai daí:
| Droga | Como reduzir | Quando reavaliar |
|---|---|---|
| Noradrenalina | Passos pequenos, a cada 10–30 min | Menos de 5 minutos já mostra a resposta |
| Vasopressina | Reduzir ou suspender | Espere 20 a 30 minutos antes do próximo ajuste |
Não é preciso criar uma regra rígida e inegociável sobre qual sai primeiro. O que não dá é tratar as duas com o mesmo cronômetro. Se você reduzir a vasopressina e reavaliar em 5 minutos como faria com a nora, vai concluir que o paciente tolerou quando ele ainda não teve tempo de mostrar que não tolerou.
Monitorização: o que olhar enquanto a bomba corre
| Parâmetro | Por quê |
|---|---|
| PAM | O alvo mais direto. Mas não sozinho |
| Tempo de enchimento capilar | Adjunto recomendado pela SSC 2026, gratuito e à beira do leito |
| Lactato seriado | A tendência, não o valor isolado |
| Diurese e nível de consciência | Perfusão de órgão que você consegue ver |
| Ritmo cardíaco | Arritmia é efeito dose-dependente |
| Extremidades e sítio de punção | Isquemia digital e extravasamento. Se é periférico, olhe sempre |
| Perfusão esplâncnica | Dor abdominal desproporcional, distensão, acidose sem explicação. Isquemia mesentérica em dose alta é rara, mas é catastrófica |
| Glicemia | Se você está infundindo litros de solução em SG 5% |
O resumo que cabe no bolso
Se você levar sete coisas deste texto, que sejam estas:
- Ampola de 4 mL = 4 mg de noradrenalina BASE, mesmo que o rótulo diga 8 mg de hemitartarato. Calcular pelo sal dobra a dose sem você perceber.
- A nora faz três coisas, não uma. Vasoconstrição arterial, venoconstrição que recruta volume não estressado e aumenta a pré-carga, e um efeito inotrópico discreto. É por isso que ela funciona também no choque cardiogênico.
- Primeira linha no choque séptico, sem competidor. SSC 2026, recomendação forte. Dopamina dobra a arritmia sem ganho de mortalidade (SOAP II). Adrenalina no cardiogênico gerou mais choque refratário (OptimaCC).
- Diluição padrão: 4 ampolas em 234 mL de SG 5% = 64 mcg/mL. Glicosado porque a glicose protege da oxidação, conforme bula. Equipo fotossensível, troca em 24 horas, via dedicada, bomba de infusão sempre.
- Comece em 5 mL/h, reavalie a cada 3 a 4 minutos, suba de 5 em 5. E titule pela perfusão, não só pelo número: enchimento capilar, lactato seriado, diurese, consciência.
- Acesso periférico é seguro por tempo curto e com critério. Meta-análise de 2026 com 33 mil cateteres: 2,6% de eventos menores com noradrenalina e praticamente zero evento maior em cateter periférico curto. Não atrase a droga esperando o central. Mas trate o periférico como ponte, com veia calibrosa, cateter 20G ou maior, sítio visível.
- No desmame, o cronômetro é diferente para cada droga. Noradrenalina responde em menos de 5 minutos. Vasopressina pede 20 a 30 minutos antes do próximo ajuste, porque a meia-vida é de cerca de 30 minutos. Retirar a vasopressina primeiro se associa a mais hipotensão, sem diferença de mortalidade.
E a regra que atravessa tudo: a noradrenalina compra tempo. Ela não trata a causa. Enquanto a bomba corre, o trabalho continua sendo controlar o foco, corrigir o volume e achar o que você não viu.
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Se este conteúdo te ajudou a organizar o raciocínio, é exatamente isso que a gente faz todo dia na Comunidade Arkamed.
É lá que discutimos casos como esse, com a bomba que não tem, com o acesso central que vai demorar, com a vaga de UTI que não sai. Médicos e estudantes trocando conduta de verdade, sem enrolação, com foco no que você usa no plantão de amanhã.
Quem domina droga vasoativa não é quem decorou a faixa de dose. É quem sabe o que fazer nos próximos cinco minutos.
Referências
Diretrizes
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- Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Crit Care Med. 2021;49(11):e1063-e1143.
- Carney N, Totten AM, O’Reilly C, et al. Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4th Edition. Brain Trauma Foundation. Neurosurgery. 2017;80(1):6-15.
- Leone M, Myatra SN, Dugar S, et al. Clinical criteria for the definition of refractory septic shock: a joint Delphi consensus from the Society of Critical Care Medicine (SCCM) and European Society of Intensive Care Medicine (ESICM). Intensive Care Med. 2026 Mar 24.
Escolha do vasopressor
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- Permpikul C, Tongyoo S, Viarasilpa T, et al. Early Use of Norepinephrine in Septic Shock Resuscitation (CENSER): A Randomized Trial. Am J Respir Crit Care Med. 2019;199(9):1097-1105.
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Farmacologia e hemodinâmica
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- Persichini R, Silva S, Teboul JL, et al. Effects of norepinephrine on mean systemic pressure and venous return in human septic shock. Crit Care Med. 2012;40(12):3146-3153.
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Rotulagem, dose e segurança
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- Rudoni MA, Sacha GL, Wieruszewski PM. The Weight of the Situation: The Case for Standardizing Vasopressor Dosing Units. Crit Care Med. 2026;54(5):1049-1055.
Acesso periférico e extravasamento
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Desmame
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Bulas e informação de prescrição
- Bula aprovada pelo FDA: Levophed (norepinephrine bitartrate) injection — Pfizer/Hospira.
- Bulas aprovadas pela ANVISA: Hemitartarato de Norepinefrina 2 mg/mL (Hypofarma, Novafarma e outros fabricantes).
As doses e esquemas citados seguem bulas e diretrizes referenciadas. Confira sempre a bula aprovada pela ANVISA e o protocolo da sua instituição antes de prescrever.


