GINA 2026: o que mudou no manejo da asma e o que muda no seu plantão

Foto de Roberto Kapobel

Roberto Kapobel

Médico | UTI | Professor | Palestrante

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Roberto Kapobel

Médico | UTI | Professor | Palestrante

Três da manhã, sala vermelha. Chega um rapaz de 24 anos, asmático, falando por frases curtas, tiragem intercostal, sibilos por todo o tórax. O oxímetro marca 93%. O que a maioria de nós faz por reflexo? Coloca máscara de oxigênio, manda dez jatos de salbutamol com espaçador e repete a cada vinte minutos até “melhorar”.

O GINA 2026 acabou de dizer que boa parte desse reflexo está errada.

O novo relatório da Global Initiative for Asthma foi publicado em 5 de maio de 2026, no Dia Mundial da Asma, e tem um perfil diferente das edições anteriores. Enquanto o GINA 2025 girou em torno de biomarcadores de inflamação tipo 2 e reorganização do tratamento infantil, o GINA 2026 é operacional. Ele foi escrito olhando para quem atende crise: atenção primária, pronto atendimento, emergência e o seguimento imediato depois da alta.

Se você é plantonista, esse é o ano em que a diretriz de asma finalmente foi escrita pensando em você. Abaixo, o que mudou e como aplicar já no próximo plantão.

Por que o GINA 2026 mexeu tanto na asma aguda

A lógica por trás das mudanças é simples e desconfortável: a maior parte do dano na crise asmática não vem da doença mal tratada, vem do tratamento em excesso feito no susto.

Oxigênio liberal, salbutamol em doses cada vez maiores porque “o paciente não melhorou”, corticoide oral repetido a cada visita. Cada um desses reflexos tem uma consequência mensurável. Hiperóxia piora a relação ventilação-perfusão e reduz o drive respiratório. SABA em dose alta causa acidose lática, hipocalemia, tremor e taquicardia, e a hiperventilação compensatória da acidose é lida como “broncoespasmo piorando”, o que gera mais SABA. É um ciclo que se retroalimenta na beira do leito.

O GINA 2026 tenta quebrar esse ciclo com regras numéricas explícitas e fluxogramas que cabem em uma folha impressa.

1. Quatro novos fluxogramas de exacerbação

Essa é a principal novidade estrutural. O GINA 2026 criou quatro fluxogramas de avaliação, tratamento e seguimento para crise asmática, separados por idade e por cenário:

  • adultos, adolescentes e crianças de 6 a 11 anos na atenção primária
  • adultos, adolescentes e crianças de 6 a 11 anos no pronto atendimento ou emergência
  • crianças de 5 anos ou menos na atenção primária
  • crianças de 5 anos ou menos no pronto atendimento ou emergência

Cada um traz critérios explícitos de gravidade (leve, moderada, grave e risco de vida), a conduta correspondente e o que fazer antes da alta. São feitos para serem impressos e colados na parede da sala de emergência, não para serem lidos no celular no meio da crise.

2. Oxigênio: a mudança que mais impacta o plantão

Aqui está a virada mais prática de todas.

Não inicie oxigênio suplementar se a saturação estiver igual ou acima de 92%.

E se você ofertar oxigênio:

  • adultos, adolescentes e crianças de 6 a 11 anos: o limite superior do alvo é 95%
  • crianças de 5 anos ou menos com sibilância aguda ou exacerbação grave: alvo de saturação igual ou maior que 92%

Traduzindo para o paciente do começo do texto: aquele rapaz com 93% em ar ambiente não precisa de máscara. Ele precisa de broncodilatador, corticoide sistêmico e reavaliação. Colocar oxigênio ali não melhora desfecho e pode piorar.

Esse é o tipo de mudança que muda cultura de serviço. Vale levar para a próxima reunião clínica.

3. SABA: menos é mais

As doses recomendadas de beta-2 de curta ação ficaram mais conservadoras do que nas edições anteriores, justamente pela evidência crescente de sobretratamento durante as crises.

O ponto que o GINA 2026 quer que você grave: paciente que piora depois de várias doses de salbutamol pode não estar broncoespasmando mais, pode estar intoxicado. Acidose lática por SABA gera taquipneia e sensação de dispneia. Se a resposta a isso for mais salbutamol, você afunda o paciente.

Sinais que devem levantar a suspeita: taquicardia desproporcional, tremor importante, hipocalemia, acidose metabólica com ânion gap aumentado em um paciente que recebeu muitas doses. Nesses casos, a conduta é reavaliar, não escalar.

4. Anafilaxia com asma: adrenalina primeiro

Uma recomendação nova aparece nos quatro fluxogramas: se o paciente tem sinais de anafilaxia junto com a crise asmática, faça adrenalina antes do broncodilatador.

Parece óbvio escrito assim, mas na prática o quadro chega rotulado como “crise de asma” e o reflexo é nebulizar. O broncoespasmo da anafilaxia responde mal a broncodilatador isolado. A adrenalina intramuscular é o tratamento definitivo e não pode esperar a terceira nebulização.

Guarde os gatilhos que devem acender a suspeita: início súbito após exposição alimentar ou medicamentosa, urticária, angioedema, hipotensão, sintomas gastrointestinais associados. Paciente asmático com alergia alimentar é população de risco.

5. ICS-formoterol também na crise leve

Novidade relevante para adultos, adolescentes e crianças de 6 a 11 anos que chegam com exacerbação leve, seja na atenção primária ou na emergência: o ICS-formoterol passa a ser uma alternativa ao SABA inalatório para o tratamento da própria crise.

Ou seja, aquela combinação que você já conhecia como manutenção e resgate agora tem espaço dentro da crise leve. A vantagem prática é a ponte: o paciente já sai do atendimento usando o esquema que vai manter em casa, em vez de sair com salbutamol e uma receita de outra coisa que ele talvez nunca compre.

6. Função pulmonar antes de tratar e antes da alta

O GINA 2026 recomenda fortemente medir função pulmonar com espirometria ou pico de fluxo expiratório em todos os pacientes com exacerbação, com exceções relacionadas à idade (pré-escolares) e às apresentações com risco de vida, onde a prioridade óbvia é estabilizar.

E acrescenta uma segunda medida: antes da alta.

Isso resolve um problema antigo do pronto-socorro, que é dar alta por impressão clínica. O paciente para de sibilar, senta na maca, conversa, e a gente libera. O PFE de saída dá um número para essa decisão e vira parte do plano de ação escrito.

7. Red flags de asma fatal ou quase fatal

O relatório passa a trazer uma lista explícita de características que indicam risco aumentado de asma fatal ou quase fatal em adultos e adolescentes. São os pacientes que você não deve dar alta rápido, e que devem sair do plantão com encaminhamento.

Os marcadores clássicos que compõem esse grupo de risco:

  • intubação ou ventilação mecânica prévia por asma
  • internação ou visitas repetidas ao pronto-socorro por asma no último ano
  • uso atual ou recentemente suspenso de corticoide oral
  • ausência de corticoide inalatório na prescrição, ou má adesão
  • técnica inalatória inadequada
  • uso excessivo de SABA (mais de um frasco por mês)
  • alergia alimentar em paciente asmático
  • problemas psicossociais ou psiquiátricos relevantes

Uma pergunta de trinta segundos na anamnese identifica quase todos eles. Vale a pena incorporar.

8. O que mudou no tratamento de manutenção

Aqui o GINA consolida o caminho que vem trilhando desde 2019.

Track 1 continua sendo o preferido

Resgate com ICS-formoterol em baixa dose, o chamado alívio anti-inflamatório (AIR), em todos os degraus. Nos degraus 1 e 2 apenas sob demanda, e a partir do degrau 3 como manutenção e resgate no mesmo dispositivo (MART). Um único medicamento, um único inalador, uma única lógica para o paciente decorar.

Lembre da pegadinha clássica: MART só funciona com formoterol, pelo início de ação rápido. Salmeterol e vilanterol não servem para resgate.

Track 2 ganhou o alívio anti-inflamatório no Degrau 1

Essa é a novidade conceitual do ano. A terapia AIR com combinação ICS-SABA foi incluída no Degrau 1 do Track 2, e passa a estar presente em todos os degraus dessa via.

O racional vem do estudo BATURA, em pacientes com asma mal controlada, no qual o ICS-SABA sob demanda reduziu quase pela metade o risco de exacerbações graves em comparação com o resgate feito apenas com SABA.

O recado é definitivo: não existe mais espaço para SABA isolado em nenhum degrau da escada. Se o paciente vai usar SABA para alívio, tem que vir corticoide inalatório junto, seja no mesmo dispositivo ou em dispositivos separados usados na mesma hora.

Atenção prática: nos degraus 2 a 5 do Track 2 esse esquema exige dois inaladores. O GINA 2026 alerta explicitamente para o risco de confusão do paciente e insiste no treinamento de uso, principalmente quando os dispositivos são diferentes entre si.

Crianças de 6 a 11 anos

O relatório incorpora evidência de que, em crianças e adolescentes de 5 a 15 anos, budesonida-formoterol em baixa dose usada sob demanda para alívio reduziu em cerca de 50% o risco de exacerbações moderadas a graves quando comparada ao SABA isolado. Foram acrescentadas orientações e comentários específicos por faixa etária, além de um consenso sobre em qual degrau iniciar o tratamento nessa idade.

Degrau 5 e o papel do LAMA

A evidência sobre LAMA como terapia adicional em adultos e adolescentes no degrau 5 foi atualizada. O ponto importante: a redução de exacerbações graves com a terapia tripla, comparada ao ICS-LABA, é bem menor do que a obtida com biológicos. A tripla continua útil, mas para o paciente que não tem acesso ou não preenche critério para biológico, não como substituta.

9. Asma grave: novos biológicos na mesa

Duas incorporações:

  • Depemokimabe, anti-IL5 de ação prolongada, aplicado por via subcutânea a cada 26 semanas. Duas aplicações por ano muda completamente a conversa sobre adesão em asma eosinofílica grave.
  • Omalizumabe-igec, biossimilar anti-IgE, com potencial de ampliar acesso onde o custo era a barreira.

Além disso, o GINA 2026 deixou mais clara a árvore de decisão para escolha de biológico em pacientes com evidência de inflamação tipo 2, valorizando critérios como elegibilidade local, preditores de resposta, comorbidades, custo, via e frequência de administração e preferência do paciente. Foi incluída também uma tabela com indicações não asmáticas das quatro classes atuais de biológico, útil quando o paciente tem polipose nasal, dermatite atópica ou urticária crônica associadas.

10. Diagnóstico: o critério de 2022 foi abandonado

Mudança importante para quem interpreta espirometria.

O critério alternativo de resposta broncodilatadora proposto em 2022, baseado em aumento maior que 10% do VEF1 predito, foi abandonado. Grandes bancos de dados mostraram que ele levaria a subdiagnóstico, especialmente em homens jovens.

O GINA 2026 reafirma o critério clássico: aumento maior ou igual a 12% e maior ou igual a 200 mL em relação ao valor pré-broncodilatador.

O fluxograma diagnóstico também foi simplificado. E continua valendo a regra de ouro: confirme o diagnóstico antes de iniciar corticoide inalatório, porque depois de tratar fica muito mais difícil documentar a limitação variável ao fluxo.

11. Técnica inalatória: agite o frasco

Detalhe pequeno, impacto grande. O GINA 2026 detalha as técnicas de respiração única e de respiração corrente com pMDI e espaçador, e acrescenta um lembrete específico:

Todo pMDI formulado como suspensão precisa ser agitado imediatamente antes de cada acionamento. Isso vale para salbutamol, budesonida-formoterol e fluticasona-salmeterol, entre outros.

Não agitar entre os jatos pode fazer com que o paciente receba doses muito acima ou muito abaixo do esperado. Em uma sequência de dez jatos na emergência, isso não é detalhe.

Antes de escalar tratamento de qualquer paciente, peça para ele usar o dispositivo na sua frente. Técnica ruim continua sendo a principal causa de “falha terapêutica”.

12. Novas ferramentas de avaliação

Três instrumentos entraram no relatório:

  • CAAT (Chronic Airways Assessment Test): oito itens, avaliação centrada no paciente do estado de saúde respiratória em adultos, incluindo perguntas sobre escarro e energia.
  • Peds-AIRQ: escore composto desenvolvido para crianças de 5 a 11 anos. Escores mais altos indicam maior risco de exacerbação, mas o relatório faz uma ressalva importante: criança classificada como bem controlada pelo instrumento ainda pode exacerbar.
  • PRAM (Pediatric Respiratory Assessment Measure): para menores de 18 anos que chegam com exacerbação, há agora recomendação forte de usar um escore clínico validado para graduar a gravidade, e o PRAM é o exemplo dado.

13. Outros pontos que valem registro

  • Vacinação: evidência atualizada sobre influenza, vírus sincicial respiratório e COVID-19.
  • Corticoide oral: reforço do uso criterioso. Menor dose eficaz, menor tempo, e monitorização do uso cumulativo. Toda exacerbação que exigiu atendimento urgente ou corticoide oral deve disparar uma revisão do tratamento de manutenção, mesmo que seja a primeira.
  • Agonistas de GLP-1: breve menção a dados observacionais sobre um possível papel futuro na melhora de desfechos em asma. Ainda é sinalização, não recomendação.
  • Doses de medicação inalada: passaram a ser expressas como dose liberada, com a dose medida entre parênteses.

Resumo de bolso: GINA 2026 no plantão

SituaçãoConduta GINA 2026
SpO2 igual ou acima de 92%Não iniciar oxigênio
Oxigênio indicado, adulto ou criança de 6 a 11 anosAlvo com limite superior de 95%
Oxigênio indicado, criança de 5 anos ou menosAlvo igual ou maior que 92%
Anafilaxia junto com asmaAdrenalina primeiro, broncodilatador depois
Paciente piorando após muitas doses de SABAPensar em toxicidade e acidose lática, não escalar
Exacerbação leveICS-formoterol é alternativa ao SABA
Toda exacerbaçãoMedir função pulmonar na chegada e antes da alta
Alta do pronto-socorroIniciar ou ajustar terapia com ICS, plano de ação escrito, seguimento
Resgate na manutençãoNunca SABA isolado, em nenhum degrau
Diagnóstico funcionalAumento maior ou igual a 12% e 200 mL no VEF1
pMDI em suspensãoAgitar antes de cada jato

Você não precisa descobrir isso sozinho

Toda vez que uma diretriz grande é atualizada, existe um intervalo cruel entre a publicação e o momento em que aquilo vira conduta na sua mão. Nesse intervalo, quem lê rápido e discute com gente boa atende melhor. O resto continua repetindo o protocolo de cinco anos atrás.

A comunidade ArkaMed existe exatamente para encurtar esse intervalo. É onde plantonistas, intensivistas e estudantes discutem caso real, atualização quente e a decisão difícil das três da manhã, com gente que atende o mesmo tipo de paciente que você.

Medicina de excelência não é sobre saber tudo. É sobre estar no lugar onde a informação certa chega primeiro e onde alguém com mais estrada revisa o seu raciocínio.

e seja o plantonista que os colegas chamam quando o caso complica.


Fontes

Conteúdo baseado no GINA 2026 Strategy Report e em sínteses clínicas da atualização.

  • Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2026 update. Disponível em: https://ginasthma.org/2026-gina-strategy-report/
  • Guideline Central. 2026 GINA Strategy for Asthma Management and Prevention Guideline Update, 19/05/2026. https://www.guidelinecentral.com/insights/may-2026-gina-asthma-guideline-spotlight/
  • Practice Nurse. GINA 2026: achieving the best possible outcomes for people with asthma, 26/05/2026. https://practicenurse.co.uk/guidelines/gina-2026-achieving-the-best-possible-outcomes-for-people-with-asthma
  • Pneumoimagem. GINA 2026 é publicado e atualiza o manejo da asma aguda, alívio anti-inflamatório e asma grave, 05/05/2026. https://www.pneumoimagem.com.br/noticia/gina-2026-e-publicado-e-atualiza-o-manejo-da-asma-aguda-alivio-anti-inflamatorio-e-asma-grave-578
  • Medway. GINA 2026: o que mudou e como isso impacta sua prática clínica, 19/05/2026. https://www.medway.com.br/conteudos/gina-2026/
  • Portal Afya. Atualização GINA 2026: a consolidação das estratégias anti-inflamatórias na asma, 18/05/2026.

Veja também:

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