Poucas drogas do carrinho de emergência geram tanta insegurança quanto o bicarbonato de sódio.
Todo mundo já viu prescrever. Quase ninguém sabe explicar com clareza por que aquela dose, naquela diluição, naquela velocidade. E o motivo é simples: as duas perguntas têm respostas de qualidade muito diferente.
A pergunta “quando fazer” tem indicações razoavelmente formais. Tem diretriz, tem ensaio clínico, tem número.
A pergunta “quanto e como fazer” não tem. Ali você está sozinho com o paciente. Depende da volemia, da hemodinâmica, do sódio, do potássio, do valor do bicarbonato, do acesso que você tem, da bomba que você tem — e da equipe que você tem.
Este texto separa as duas coisas. Primeiro o que a evidência sustenta. Depois o que é decisão sua na beira do leito.
Antes de tudo: na acidose respiratória, nunca
Vale abrir o texto com essa regra, porque ela organiza todo o resto.
O bicarbonato tampona H⁺ produzindo ácido carbônico, que se decompõe em água e CO₂. Esse CO₂ precisa sair pelo pulmão. Se o paciente não ventila, você acabou de dar mais CO₂ para quem já não consegue eliminar o que tem.
Pior: o CO₂ atravessa membrana celular livremente — o bicarbonato não. O resultado possível é você “melhorar” o pH arterial do monitor enquanto piora a acidose dentro da célula e no líquor.
O tamanho desse efeito foi medido. Em pacientes de UTI sob ventilação mecânica, cerca de 100 mmol de bicarbonato elevaram a PaCO₂ de 40 para 46 mmHg — com retorno ao basal em torno de 30 minutos (Levraut, Intensive Care Med, 2000). Repare na condição: desde que houvesse ventilação para eliminar o CO₂. Num paciente que já retém, esse retorno não acontece.
Não à toa, o resumo das características do produto no Reino Unido lista hipoventilação como contraindicação formal.
Se a acidose é respiratória, o tratamento é ventilação. Não é ampola.
Uma precisão necessária. A regra vale para a acidose respiratória isolada — e, em qualquer indicação, o princípio é o mesmo: só com ventilação garantida. As exceções aparentes que você vai ver adiante (PCR por hipercalemia, cardiotoxicidade por tricíclico) não contradizem isso: nelas o alvo é o canal de sódio ou o potássio, não o pH, e o paciente está sendo ventilado.
E mesmo na acidose metabólica, guarde a consequência prática: o paciente precisa conseguir eliminar o CO₂ gerado. No paciente em ventilação mecânica, isso significa olhar o volume-minuto antes e depois. (Vale registrar: não existe recomendação formal de bula ou diretriz dizendo “aumente o volume-minuto em X%”. É raciocínio fisiológico, e você monitoriza com gasometria.)
O que o bicarbonato faz — e o que ele não faz
Ele faz: eleva o pH e o bicarbonato séricos. Isso é reprodutível e mensurável — em todos os ensaios modernos a separação bioquímica entre os grupos aconteceu.
Ele não faz — ou não está demonstrado que faça: melhorar hemodinâmica, reduzir vasopressor, corrigir a acidose intracelular, ou salvar vidas na população geral.
Essa distinção é o eixo de todo o texto. Corrigir o número da gasometria não é o mesmo que mudar o desfecho do paciente.
E ele cobra um preço, que os ensaios quantificaram:
| Efeito adverso | BICAR-ICU (bicarbonato vs controle) |
|---|---|
| Hipernatremia (Na > 145) | 49% vs 29% (p = 0,0001) |
| Hipocalcemia iônica (Ca < 0,9) | 24% vs 15% (p = 0,017) |
| Alcalose metabólica (pH > 7,45) | 16% vs 9% (p = 0,032) |
Somam-se a isso sobrecarga volêmica (no BICARICU-2, balanço hídrico 954 mL maior no segundo dia) e hipocalemia.
Repare no primeiro item da lista. Como se diz na comunidade: é bicarbonato de sódio. E o sódio é seguido pela água, como a sombra segue o homem.
PARTE 1 — QUANDO FAZER
Acidose metabólica grave com lesão renal aguda
Esta é a indicação com mais evidência. E é também a que mais mudou nos últimos dois anos — por isso vale contar a história inteira.
O estudo que criou a indicação: BICAR-ICU (2018)
Ensaio francês, 26 UTIs, 389 pacientes com pH ≤ 7,20, PaCO₂ ≤ 45 mmHg e bicarbonato ≤ 20 mmol/L. Recebiam bicarbonato a 4,2%, 125–250 mL em 30 minutos, máximo de 1.000 mL em 24 h, com alvo de pH ≥ 7,30.
O desfecho primário foi negativo: 66% vs 71% (p = 0,24). A mortalidade em 28 dias ficou no limiar: 45% vs 53% (p = 0,07).
Mas no subgrupo pré-especificado de LRA AKIN 2–3 (n = 182), os números impressionaram: mortalidade em 28 dias de 46% vs 63% (p = 0,03) e necessidade de diálise de 51% vs 73%.
Foi esse subgrupo que virou recomendação de diretriz. E foi ele que gerou a prática que a maioria de nós aprendeu.
Os estudos que testaram a hipótese: BICARICU-2 e SODa-BIC
Aqui está a parte que muita gente ainda não incorporou.
BICARICU-2 (JAMA, outubro de 2025) foi desenhado exatamente para testar aquele subgrupo de forma prospectiva. 640 pacientes, 43 UTIs, mesmos critérios (pH ≤ 7,20, HCO₃⁻ ≤ 20, PaCO₂ ≤ 45) mais LRA KDIGO 2 ou 3. Mesmo protocolo de infusão.
Resultado da mortalidade em 90 dias: 62,1% vs 61,7%. Diferença de 0,4%. p = 0,91.
O benefício de mortalidade não se confirmou.
SODa-BIC (NEJM, junho de 2026) foi o primeiro grande ensaio duplo-cego e controlado por placebo — 498 pacientes em vasopressor, com pH < 7,30 e excesso de base ≤ −4 mmol/L. Desfecho primário MAKE30 (óbito, nova diálise ou disfunção renal persistente em 30 dias): 40,2% vs 39,4% (p = 0,78). Também negativo.
O que sobrou, então?
Uma meta-análise de dados individuais dos dois ensaios franceses (Critical Care, 2026; n = 1.016) organizou o quadro:
| Desfecho | Resultado |
|---|---|
| Mortalidade em 90 dias (global) | RR 0,96 (IC95% 0,86–1,07) — sem benefício |
| Terapia de substituição renal | RR 0,69 (IC95% 0,60–0,79); NNT 6,3 — certeza alta |
| Mortalidade no subgrupo pH ≤ 7,10 | RR 0,80 (IC95% 0,68–0,93); p de interação 0,006 |
| Mortalidade com pH > 7,10 | RR 1,05 — sem diferença |
Traduzindo para a beira do leito:
- Bicarbonato não reduz mortalidade na acidose metabólica grave em geral. Isso agora tem dois ensaios grandes dizendo a mesma coisa.
- Bicarbonato reduz a necessidade de diálise nos dois ensaios franceses, com NNT de 6 e certeza alta.
- Pode existir um nicho na acidemia realmente profunda (pH ≤ 7,10) — mas isso é análise de subgrupo, geradora de hipótese, ainda não testada de frente.
Uma ressalva importante sobre a diálise. A meta-análise reúne apenas os dois ensaios franceses, que são abertos. O SODa-BIC — o único cegado — não mostrou redução significativa de diálise em 30 dias (16,8% vs 20,9%). Como indicar diálise é uma decisão do médico à beira do leito, e não um desfecho automático, a ausência de cegamento pesa bastante aqui. O achado é o mais sólido que sobrou, mas não é inquestionável.
E as diretrizes?
A Surviving Sepsis Campaign — tanto a versão de 2021 quanto a de 2026 — mantém duas recomendações:
- Contra usar bicarbonato para melhorar hemodinâmica ou reduzir vasopressor na acidemia láctica por hipoperfusão.
- A favor de usar no choque séptico com pH ≤ 7,2 e LRA AKIN 2 ou 3.
Ambas são condicionais (fracas). Em 2026, a certeza da evidência da recomendação a favor (pH ≤ 7,2 + LRA) caiu para muito baixa; a recomendação contra o uso hemodinâmico permaneceu com certeza baixa.
O painel francês de 2019 diz coisa parecida (GRADE 2+): provavelmente administrar em pH ≤ 7,20 com PaCO₂ < 45 mmHg e insuficiência renal aguda moderada a grave.
Como isso muda a sua conduta prática? Se o argumento para prescrever era “reduz mortalidade”, ele caiu. Se o argumento é “adia ou evita a diálise”, ele se sustenta — e num pronto-socorro sem retaguarda de nefrologia às 3 da manhã, isso não é pouca coisa. O que não dá mais é prescrever no automático dizendo que salva vida.
Sobre o alvo de bicarbonato em 22
Vale um alerta honesto. É comum ouvir “faço bicarbonato objetivando um bicarbonato sérico perto de 22”.
Esse número não vem da terapia intensiva. Todos os ensaios (BICAR-ICU, BICARICU-2, SODa-BIC) usaram alvo de pH, não de bicarbonato. O “22” vem da nefrologia crônica — e, como você vai ver adiante, até a nefrologia baixou esse limiar.
Não é um erro grave usar 22 como referência mental. Mas é prática extrapolada, não meta validada.
Acidose láctica e choque séptico
Aqui a resposta é mais curta: não é a indicação.
Os dois estudos fisiológicos clássicos — Cooper (Ann Intern Med, 1990, n = 14) e Mathieu (Crit Care Med, 1991, n = 10, com 1 mmol/kg) — mostraram a mesma coisa: o bicarbonato sobe o pH e não muda nada da hemodinâmica. Nem pressão, nem débito cardíaco, nem oferta tecidual de oxigênio.
São estudos pequenos, e ambos tinham poucos pacientes com pH abaixo de 7,1 — o que significa que eles não excluem benefício na acidemia profunda. Mas é o que temos, e a Surviving Sepsis recomenda contra com base nisso.
A leitura prática: se você está pensando em bicarbonato para “ajudar a pressão” ou “fazer a noradrenalina funcionar”, a evidência não te apoia. A lactatemia se trata tratando a causa da hipoperfusão.
O nicho continua sendo o mesmo da seção anterior: LRA + acidemia grave. Não é a hiperlactatemia que indica.
Hipercalemia
Fisiologicamente, o raciocínio é bonito: você alcaliniza, a célula troca H⁺ por K⁺, o potássio entra.
Na prática, não funciona.
- Blumberg (1988), em 10 pacientes em hemodiálise de manutenção: o bicarbonato falhou em reduzir o potássio — de 5,83 para 5,66 mmol/L, uma queda de 0,17 que não significa nada clinicamente. No mesmo estudo, insulina + glicose levou de 5,62 para 4,70.
- Meta-análise do ILCOR (Resuscitation, 2025), com 101 estudos, é direta: “bicarbonate had no effect on potassium levels” — com a ressalva, no próprio texto, de certeza muito baixa da evidência. Insulina + glicose e salbutamol, por comparação, reduzem 0,7 a 1,2 mmol/L.
Por que o bicarbonato hipertônico falha? Porque a hipertonicidade puxa potássio para fora da célula por arraste de solvente, anulando o efeito do pH.
A diretriz do UK Kidney Association é explícita (recomendação 16.5, grau 2C): não usar bicarbonato de sódio de rotina no tratamento agudo da hipercalemia.
Então quando ele entra?
Em duas situações:
1. PCR por hipercalemia. Aí sim. O ERC recomenda 50 mmol (50 mL de bicarbonato 8,4%) IV em bolus rápido, e a AHA 2025 classifica como razoável (COR 2b, LOE C-EO).
2. Hipercalemia com acidose metabólica concomitante e necessidade de expansão volêmica. Aqui o alvo real é a acidose, não o potássio — e a forma de fazer é bicarbonato isotônico em volume, substituindo o cristaloide, não uma ampola em bolus.
Ou seja: hipercalemia isolada não é indicação. Hipercalemia com acidose metabólica é outra conversa — e mesmo aí, a força da recomendação é fraca.
A ordem que não muda
| Passo | O que fazer | Referência |
|---|---|---|
| 1. Estabilizar a membrana (se alteração no ECG) | Gluconato de cálcio 10% 30 mL IV em 10 min ou cloreto de cálcio 10% 10 mL IV em 5 min | UKKA 16.2a (1C) |
| 2. Deslocar para o intracelular | 10 U de insulina regular em 25 g de glicose IV + salbutamol nebulizado 10–20 mg como adjuvante | UKKA 16.3.1 (1B) e 16.4.1 (1B) |
| 3. Remover | Ligante de potássio (ciclossilicato de zircônio e sódio 10 g VO), diurético em quem urina, diálise se K ≥ 6,5 em paciente dialítico | UKKA 16.6.1 (1B), 18.1 (1A) |
Salbutamol não deve ser monoterapia (UKKA 16.4.3, grau 1A). E o potássio deve ser redosado em 1, 2, 4, 6 e 24 h.
Detalhe que salva: bicarbonato e cálcio não podem correr na mesma via. O ERC 2025 orienta administrá-los “through separate lines or with a flush in between” — por linhas separadas ou com um flush entre eles. Se você fizer os dois na mesma linha, precipita.
Parada cardiorrespiratória
Uso rotineiro: não. A AHA 2025 classifica como COR 3 (No Benefit), LOE B-R: “Para adultos em parada cardiorrespiratória, a administração rotineira de bicarbonato de sódio não é recomendada.”
O bicarbonato entra na PCR quando a causa justifica:
- Hipercalemia conhecida ou suspeita
- Intoxicação por antidepressivo tricíclico ou outro bloqueador de canal de sódio
- Intoxicação por cocaína com arritmia de complexo largo
Fora dessas causas, você está gerando CO₂ num paciente sem circulação para eliminá-lo.
E fica a regra que vale para todas essas situações: se você vai fazer bicarbonato na PCR, você precisa de gasometria. Prescrever às cegas e repetir “quando necessário” sem medir é chutar.
Intoxicação por bloqueadores de canal de sódio (tricíclicos, cocaína)
Esta é a indicação mais forte de todas — e, ironicamente, a menos lembrada.
A AHA 2023 recomenda bicarbonato para cardiotoxicidade ameaçadora à vida por antidepressivo tricíclico ou tetracíclico com COR 1, LOE B-NR. Recomendação forte. Para outros bloqueadores de canal de sódio e para cocaína com taquicardia de complexo largo ou PCR: COR 2a, LOE C-LD.
Por que funciona
Mecanismo duplo: a carga de sódio compete com a droga pelo canal, e a alcalinização reduz a ligação do fármaco ao canal e a fração livre. Não é só o pH — é o sódio também. Por isso o bicarbonato hipertônico é o agente, e não simplesmente “alcalinizar”.
Como fazer
| Item | Referência |
|---|---|
| Gatilho | QRS > 100 ms, arritmia ventricular, ou hipotensão não hipovolêmica |
| Bolus | 1 a 2 mEq/kg IV (= 1 a 2 mL/kg de bicarbonato 8,4%), repetindo a cada 3–5 min até o QRS estreitar |
| Manutenção | 150 mEq de bicarbonato 8,4% em volume final de 1 L de SG 5%, a 150–250 mL/h |
| Alvo | QRS < 100 ms e pH sérico 7,45–7,55 |
| Quando parar | pH > 7,55 ou sódio > 155 mmol/L — o que vier primeiro |
| Monitorizar | Sódio, potássio e cálcio iônico. O bicarbonato sobe o primeiro e derruba os outros dois |
Nota de correção: o esquema de “20 mL em bolus” que circula na prática é bem menor do que a referência de bula e de toxicologia. A bula brasileira do bicarbonato 8,4% traz 1 mEq/kg (ou seja, 70 mL num paciente de 70 kg), com possibilidade de repetir 0,5 mEq/kg a cada 10 minutos. Num caso de cardiotoxicidade, subdosar é perder o efeito.
Casos graves podem exigir 10 a 30 ampolas — e é justamente por isso que o sódio precisa entrar na monitorização. Trezentos mEq de bicarbonato 8,4% são 300 mEq de sódio.
Se o pH já chegou a 7,55 e o QRS continua alargado, a próxima carta é salina hipertônica — não mais bicarbonato.
Intoxicação por salicilatos
Aqui o bicarbonato é padrão de cuidado, e por um motivo diferente: alcalinizar a urina para aprisionar o salicilato ionizado no túbulo e aumentar a eliminação.
- Alvo: pH urinário ≥ 7,5 (position paper AACT/EAPCCT, 2004)
- Esquema de referência: bolus de 1–2 mEq/kg, seguido de manutenção com 150 mEq em 1 L de SG 5%, a ~200 mL/h
- pH sérico alvo 7,5–7,55, checando a cada 2 h
- O EXTRIP recomenda manter o bicarbonato IV entre as sessões de diálise (recomendação 1D)
O detalhe que faz a terapia funcionar ou fracassar: o potássio. A hipocalemia faz o túbulo coletor excretar H⁺, e com isso a urina não alcaliniza. Não é só um efeito adverso a corrigir — é o que inviabiliza o tratamento. Mantenha o potássio acima de 4–4,5 mEq/L de forma agressiva.
O painel francês vai além e sugere administrar bicarbonato na intoxicação por salicilatos independentemente do pH (opinião de especialista).
Contraindicação relativa importante: insuficiência renal estabelecida ou iminente. Aí a conversa é diálise.
Cetoacidose diabética
Não é indicação de rotina. E a evidência é consistente há quase 40 anos.
- Morris (1986), n = 21, com pH entre 6,9 e 7,14: sem diferença na velocidade de queda da glicose, das cetonas, nem na recuperação do pH.
- Chua (2011), revisão sistemática: melhora transitória do pH às 2 horas e piora paradoxal da cetonemia. A mesma revisão reúne o achado de Glaser e colaboradores: em crianças, num estudo caso-controle multicêntrico, o bicarbonato foi a única variável de tratamento associada a edema cerebral (RR 4,2; IC95% 1,5–12,1).
- Duhon (2013), 86 adultos com pH inicial < 7,0: tempo até resolução da acidose 8 h vs 8 h (p = 0,7). Quem recebeu bicarbonato precisou de mais insulina e mais volume.
- Omayer (2026), meta-análise com 8 estudos e 646 pacientes: sem diferença no pH (DM −0,02) e internação discretamente mais longa com bicarbonato (+13,6 h).
O consenso ADA/EASD/AACE/JBDS/DTS de 2024 é literal: “A administração rotineira de bicarbonato não é recomendada.”
Se você decidir fazer mesmo assim
O consenso 2024 permite considerar em acidose grave, pH < 7,0, com o seguinte esquema:
100 mmol de bicarbonato de sódio (solução 8,4%) em 400 mL de água estéril para injeção, infundidos em 2 horas (200 mL/h), com 20 mEq de KCl se o potássio não estiver elevado. Repetir a cada 2 horas até pH > 7,0.
⚠️ Atenção à velocidade e ao potássio. O texto do consenso de 2024 traz apenas “100 mmol em 400 mL de água estéril a cada 2 h” — ele não repete a velocidade nem o KCl, que constavam do esquema original da ADA de 2009. Isso não é uma revogação: é omissão. Sem velocidade definida, 400 mL de solução hipertônica podem acabar correndo em minutos. E o bicarbonato agrava a hipocalemia, que é o risco mais letal da CAD. Use a velocidade e o KCl do esquema de 2009.
⚠️ Duas divergências que você precisa conhecer:
- A Sociedade Brasileira de Diabetes mantém o limiar em pH < 6,9 (recomendação IIb, nível de evidência B), com 50 a 100 mmol diluídos em 200 a 400 mL de solução isotônica. É o mesmo limiar que a ADA usava até 2009 — ou seja, a SBD manteve o critério histórico, e o consenso internacional é que subiu para 7,0. Saiba qual dos dois o seu serviço adota.
- Não use Ringer lactato como diluente. O bicarbonato é incompatível com Ringer lactato — consta como incompatibilidade formal na informação de prescrição. Use água estéril para injeção ou SG 5%.
Rabdomiólise
Muita gente ainda alcaliniza urina na rabdomiólise. A evidência não sustenta.
- Brown (2004), 382 pacientes com CK > 5.000 U/L: sem diferença em insuficiência renal, diálise ou mortalidade entre quem recebeu bicarbonato/manitol e quem não recebeu.
- Safari (2024), meta-análise com 5 estudos e cerca de 4.694 pacientes: LRA com OR 1,26 (IC95% 0,86–1,84; p = 0,36). Nada.
- Consenso da AAST (2022) é direto: “o uso de bicarbonato de sódio ou diuréticos para prevenção de LRA na rabdomiólise não é recomendado“, e o manejo primário deve ser volume precoce com solução salina.
O pilar do tratamento é hidratação. O bicarbonato só se justifica se houver acidose metabólica sistêmica a corrigir — o que é outra indicação, não “prevenção renal”.
Doença renal crônica
Aqui houve uma virada importante, e ela vale mais que uma nota de rodapé.
KDIGO 2012 sugeria (recomendação 2B) suplementar bicarbonato oral quando o bicarbonato sérico estivesse < 22 mmol/L, mantendo-o na faixa normal. Foi essa recomendação que criou a prática de “manter BIC acima de 22 na DRC”.
KDIGO 2024 mudou duas coisas ao mesmo tempo:
| KDIGO 2012 | KDIGO 2024 | |
|---|---|---|
| Limiar | HCO₃⁻ < 22 mmol/L | HCO₃⁻ < 18 mmol/L |
| Status | Recomendação graduada 2B | Practice point não graduado |
| Monitorização | não especificada | PA, potássio e status volêmico |
Ou seja: o limiar ficou mais restritivo e a força da recomendação caiu.
O motivo está nos ensaios:
- de Brito-Ashurst (2009), n = 134, aberto: resultados espetaculares — progressão para diálise de 6,5% vs 33%. Nunca replicados.
- UBI (2019), n = 740, aberto: também positivo — duplicação de creatinina HR 0,36; diálise HR 0,50.
- BiCARB (2020), n = 300, duplo-cego e controlado por placebo — o único com esse desenho: inteiramente negativo no desfecho primário (função física), sem efeito na TFG, e com mais eventos adversos no grupo bicarbonato (457 vs 400, incluindo mais eventos gastrointestinais e cardíacos).
- Meta-análise (2025), 2.932 pacientes: eleva o bicarbonato sérico (+2,59 mmol/L), mas não melhora a TFG (DM 0,93; p = 0,52) nem a mortalidade.
Curiosamente, o medo mais citado — sobrecarga de sódio, hipertensão e edema — não se confirmou nos ensaios. Nem de Brito-Ashurst, nem o UBI, nem a meta-análise mostraram aumento significativo de PA, peso ou edema. Mas o KDIGO manteve a exigência de monitorizar volemia e pressão, e faz sentido: o paciente que você atende no plantão não é o paciente selecionado de ensaio clínico.
A leitura de 2026: a nefrologia migrou de “tratar acidose leve para proteger o rim” para “tratar acidose mais grave, monitorizando segurança, sem alegar proteção renal”. Se você vinha achando estranho o entusiasmo com manter bicarbonato acima de 22, a diretriz agora te dá razão.
Um resumo do “quando”
| Cenário | O que fazer | Força |
|---|---|---|
| Acidose respiratória isolada | Nunca | Hipoventilação é contraindicação formal |
| Acidose metabólica grave (pH ≤ 7,20) + LRA AKIN/KDIGO 2–3 | Considerar — reduz diálise, não reduz mortalidade | SSC 2021/2026, condicional, certeza muito baixa |
| Acidemia láctica por hipoperfusão, para melhorar hemodinâmica | Contra | SSC 2021/2026, condicional |
| Hipercalemia aguda (para baixar K) | Não usar de rotina | UKKA 16.5 (2C); ILCOR 2025: sem efeito |
| Hipercalemia + acidose metabólica + hipovolemia | Bicarbonato isotônico em volume | Prática, sem diretriz forte |
| PCR — uso rotineiro | Não recomendado | AHA 2025, COR 3 (No Benefit), LOE B-R |
| PCR por hipercalemia | Razoável — 50 mmol (50 mL de 8,4%) | AHA 2025 COR 2b; ERC 2021/2025 |
| Intoxicação por tricíclico com cardiotoxicidade | Recomendado | AHA 2023, COR 1, LOE B-NR |
| Cocaína / outros bloqueadores de canal de Na⁺ | Razoável | AHA 2023, COR 2a, LOE C-LD |
| Salicilatos — alcalinização urinária | Padrão de cuidado | Position paper 2004; EXTRIP 1D |
| Cetoacidose diabética | Não de rotina; considerar se pH < 7,0 | ADA/EASD 2024 (SBD: pH < 6,9) |
| Rabdomiólise — prevenção de LRA | Não recomendado | AAST 2022 |
| DRC — acidose metabólica crônica | Considerar se HCO₃⁻ < 18 | KDIGO 2024, practice point |
PARTE 2 — QUANTO E COMO FAZER
Daqui em diante, o terreno muda. Você sai da diretriz e entra na decisão individual.
E individualizar não é uma frase bonita para “faça o que quiser”. É olhar seis coisas antes de prescrever: volemia, hemodinâmica, sódio, potássio, valor do bicarbonato e acesso venoso disponível.
Primeiro: conheça o frasco que você tem na mão
Este é o erro mais comum e o mais fácil de evitar. No Brasil circulam três concentrações diferentes, muitas vezes do mesmo fabricante, nos mesmos formatos.
| Concentração | mEq/mL | Osmolaridade | Ampola 10 mL | Frasco 250 mL |
|---|---|---|---|---|
| 5% | 0,595 | 1.200 mOsm/L | ~6 mEq | ~149 mEq |
| 8,4% | 1,0 | 2.000 mOsm/L | 10 mEq | 250 mEq |
| 10% | 1,2 | 2.400 mOsm/L | 12 mEq | 300 mEq |
A diferença entre os extremos é de duas vezes na dose de bicarbonato e no aporte de sódio. Protocolos hospitalares brasileiros classificam o bicarbonato como medicamento de alta vigilância, na mesma categoria do cloreto de potássio e do cloreto de sódio 20% — e é exatamente por isso.
A conta que resolve tudo: o bicarbonato 8,4% tem 1 mEq por mL. Cabeça limpa: 1 mL = 1 mEq. Uma ampola de 10 mL = 10 mEq. O frasco de 250 mL = 250 mEq — e também 250 mEq de sódio.
A concentração de 4,2% (0,5 mEq/mL, 1.000 mOsm/L), usada nos ensaios franceses, não é comercializada no Brasil. Aqui ela se obtém diluindo a 8,4% meio a meio.
Puro, diluído ou isotônico?
Esta é a decisão que mais muda o comportamento da droga no paciente — e é onde a maioria erra por não pensar.
Bicarbonato 8,4% puro = solução hipertônica
2.000 mOsm/L. Para comparação: o plasma tem ~290 mOsm/L. Você está injetando algo quase sete vezes mais concentrado.
Isso tem três consequências:
- Carga de sódio. Cada 100 mL carregam 100 mEq de sódio. Um litro carrega 1.000 mEq — mais do que um litro de salina 3%.
- Agressão venosa. A informação de prescrição é explícita: solução hipertônica e irritante, com risco de celulite química, necrose e ulceração se extravasar.
- Efeito osmótico. Puxa água para o intravascular. Em alguns casos isso é desejável; em quem já está congesto, não.
Bicarbonato isotônico = a forma esquecida
Esta é a versão que quase ninguém prescreve e que resolve muitos dos problemas acima.
Receita prática: retire 150 mL de uma bolsa de SG 5% 1.000 mL e reponha com 150 mL de bicarbonato 8,4% (15 ampolas de 10 mL, ou 150 mL do frasco de 250 mL). Volume final: 1 L.
Resultado: 150 mEq/L de bicarbonato e de sódio — osmolaridade efetiva de ~300 mOsm/L, praticamente isotônica.
Por que SG 5%? Porque a glicose não funciona como osmol efetivo — ela entra na célula. Então, embora a osmolaridade medida da bolsa seja de cerca de 535 mOsm/L (os 300 do bicarbonato de sódio mais ~235 da glicose), in vivo a solução se comporta como isotônica. É a osmolaridade efetiva que interessa fisiologicamente.
Se o seu serviço tem água estéril para injeção em bolsa, ela é ainda melhor — elimina a carga de glicose.
⚠️ Nunca infunda água estéril sozinha. Ela só é segura depois de misturada ao bicarbonato: é o bicarbonato que torna a solução isotônica. Água estéril isolada por via endovenosa causa hemólise.
Quando essa é a forma certa:
- Paciente hipovolêmico que precisa de volume e tem acidose — a solução substitui o cristaloide, não soma a ele
- Hipercalemia com acidose metabólica
- Manutenção após bolus na intoxicação por bloqueador de canal de sódio
- Alcalinização urinária em salicilatos
- Sempre que só houver acesso periférico
Atenção à glicose se for infundir volume. A versão com SG 5% carrega cerca de 42 g de glicose por litro. Se você planeja 2 a 3 litros, são 85 a 127 g de glicose endovenosa — relevante no paciente crítico com hiperglicemia de estresse, e relevante na hipercalemia, em que glicose sem insulina pode piorar o potássio no renal crônico. Nesses casos, prefira a versão com água estéril e monitorize a glicemia.
Quando o hipertônico é a forma certa:
- Bolus em emergência — PCR, QRS alargado por tricíclico, arritmia por cocaína. Aqui você quer a carga de sódio e quer rápido.
- Paciente congesto, em que você não pode dar 1 litro
Quanto: as fórmulas, e por que elas não resolvem
As fórmulas clássicas de déficit são estas:
- Déficit (mEq) = 0,5 × peso (kg) × [24 − HCO₃⁻ medido]
- Déficit (mEq) = 0,2 × peso (kg) × déficit de base
O coeficiente (0,2 / 0,3 / 0,5) é o espaço aparente de distribuição do bicarbonato. Não é um volume anatômico — é um volume aparente que inclui o tamponamento intracelular e ósseo.
E aqui está a armadilha: esse coeficiente aumenta com a gravidade da acidose. Em condições normais fica em torno de 50% do peso corporal. Na acidose grave, ele expande para 100% do peso ou mais, porque parte do bicarbonato infundido é consumida tamponando H⁺ e simplesmente “some”.
Ou seja: usar 0,5 fixo num paciente muito acidótico subestima a dose. A fórmula erra justamente no paciente em que você mais precisa dela.
Nenhuma das bulas brasileiras traz fórmula de déficit. E não localizamos, na literatura indexada, estudo prospectivo validando essas fórmulas em humanos — comparando a dose calculada com o bicarbonato efetivamente atingido.
O que se faz na vida real
Um estudo observacional internacional em UTIs (Critical Care, 2021) mediu como o bicarbonato é de fato prescrito:
- Dose mediana em 24 h: 110 mmol
- Concentração mediana: 918 mmol/L — ou seja, quase todo mundo usa a 8,4% pura
- Velocidade mediana: 100 mmol/hora
- 65,9% em bolus (< 60 min); 27,3% em infusão contínua
- E o achado mais revelador: “a quantidade total de bicarbonato não se correlacionou com peso corporal, excesso de base ou nível de bicarbonato.”
Traduzindo: a fórmula é ignorada na prática mundial. As pessoas prescrevem uma dose redonda, medem, e repetem se precisar.
A regra prática que funciona
1 mL/kg de bicarbonato 8,4% = 1 mEq/kg.
Isso não é um atalho informal — é o que está na bula brasileira:
“1 mEq por kg de peso corporal, podendo-se repetir a dose de 0,5 mEq por kg a cada 10 minutos.”
É simples, é reprodutível, é fácil de checar na hora da pressa, e evita erro de conta com paciente instável na frente. Você faz, mede a gasometria, e decide de novo.
O que a fórmula do déficit oferece de melhor que isso é precisão aparente — e não há evidência de que essa precisão exista.
Os limites que a bula estabelece
| Situação | Limite |
|---|---|
| Velocidade máxima em infusão eletiva, adulto | 10 mEq/minuto (fonte farmacêutica terciária) |
| Acidose metabólica não urgente, adulto | 2 a 5 mEq/kg em 4 a 8 horas |
| Menores de 2 anos | Máximo 8 mEq/kg/dia; mesmo 10 mL/min já é rápido demais nessa faixa — risco de hipernatremia, queda da pressão liquórica e hemorragia intracraniana |
⚠️ O limite de 10 mEq/min é para infusão eletiva. Ele não se aplica ao bolus em PCR ou em cardiotoxicidade por bloqueador de canal de sódio, em que a recomendação é justamente empurrar rápido.
⚠️ As bulas brasileiras não estabelecem um limite universal de mEq/min para adultos, e não diferenciam acesso periférico de central. Esses limites vêm de fontes farmacêuticas e protocolos institucionais estrangeiros.
Por qual via
A regra: quanto mais concentrado, mais central.
| Fonte | Orientação |
|---|---|
| Informação de prescrição (Phebra/FDA) | Administrar “preferencialmente por via central”; extravasamento deve ser evitado |
| Guia irlandês para adultos | “Exceto em emergências, a infusão a 8,4% DEVE ser feita por linha central” |
| Protocolos que aceitam periférica | Exigem diluição — ex.: 1 mL de 8,4% até 10 mL, ou 5 mL de 8,4% + 15 mL de SG 5% |
O parâmetro objetivo por trás disso é a osmolaridade. A 8ª edição dos padrões da Infusion Nurses Society usava 900 mOsm/L como limiar acima do qual se indica acesso central. (A 9ª edição, de 2024, trocou o número por linguagem qualitativa — mas o raciocínio permanece.)
Faça a conta: a 8,4% tem 2.000 mOsm/L — mais do que o dobro do limiar. A 4,2% tem 1.000 — ainda acima. A isotônica a 150 mEq/L fica em torno de 535 mOsm/L medidos (300 efetivos) — confortavelmente abaixo.
Na emergência, com acesso periférico e indicação clara, você faz. Ninguém vai passar um acesso central antes de tratar um QRS de 180 ms. Mas faça sabendo do risco, use a veia mais calibrosa que tiver, e fique de olho no sítio.
Se extravasar
- Pare a infusão imediatamente e desconecte — mas deixe o cateter no lugar
- Aspire gentilmente o que der; não lave a linha
- Eleve o membro
- Considere hialuronidase: total de 1 mL (15 U/mL) em cinco injeções de 0,2 mL na borda da área, com agulha 25G, idealmente na primeira hora
- Compressa e elevação; documente e reavalie
Incompatibilidades: o que não pode encontrar bicarbonato
Esta lista evita precipitado no equipo e droga inativada.
| Não misturar com | Por quê |
|---|---|
| Gluconato / cloreto de cálcio | Precipitação. É a incompatibilidade mais citada e a mais perigosa na prática — porque as duas drogas são usadas no mesmo cenário (hipercalemia, PCR) |
| Noradrenalina, dobutamina, dopamina, adrenalina | Incompatibilidade de bula (ANVISA e FDA) |
| Ringer lactato | Incompatível — relevante porque muita gente usa como diluente |
| Magnésio, fosfato | Precipitação |
| Midazolam | Incompatível |
Outros incompatíveis relevantes em UTI: amiodarona, amoxicilina, ampicilina, anfotericina B, atracúrio, cefotaxima, imipenem-cilastatina, cetamina, labetalol, emulsão lipídica, metoclopramida, tiopental.
A orientação formal é linha dedicada: “Não deve ser infundido na mesma linha que outras infusões.”
Uma correção honesta sobre as catecolaminas. A frase que se repete nos corredores — “bicarbonato inativa a adrenalina na hora” — é mais forte do que os dados. O estudo de referência (Bonhomme, Ann Emerg Med, 1990) mostrou que a concentração de adrenalina estava em torno de 70% do controle após 30 minutos de alcalinização, caindo a zero só ao longo de duas semanas. Ou seja: a degradação é lenta.
Isso não muda a conduta — a bula diz para não misturar, e você não mistura. Mas evita que você entre em pânico se as linhas encostaram por alguns segundos.
E o ponto mais importante da lista, de novo, porque é o que mais acontece: cálcio e bicarbonato, vias separadas ou flush entre eles.
PARTE 3 — Bolus, gotejamento ou bomba?
Chegamos à pergunta que gerou este texto. E ela merece uma resposta honesta em duas partes: o que a evidência diz, e o que a prática impõe.
O que a evidência diz: não existe
Vou ser direto, porque isso importa: até onde a literatura indexada mostra, não há nenhum ensaio clínico randomizado — nem estudo observacional comparativo — que tenha comparado bolus versus infusão contínua de bicarbonato de sódio, seja em desfecho clínico, controle de pH ou eventos adversos.
Essa é uma lacuna real da literatura. Quem afirmar que uma via é superior à outra está afirmando além do que se sabe.
O que existe são os protocolos dos ensaios, e eles usaram infusões curtas, não infusão contínua de 24 horas:
| Estudo | Como foi feito |
|---|---|
| BICAR-ICU e BICARICU-2 | 4,2%, 125–250 mL em 30 minutos, repetido conforme o pH, máx. 1.000 mL/24 h |
| SODa-BIC | 8,4% diluída em 500 mL de SG 5% (600 mmol/L), a 100 mL/h por até 5 horas |
Repare: mesmo os ensaios que “infundiram” trabalharam com janelas curtas e reavaliação, não com bomba programada para o dia inteiro.
E a prática mundial é ainda mais enfática: no estudo observacional internacional, 65,9% das administrações foram em bolus (menos de 60 minutos) e apenas 27,3% em infusão contínua.
O que muda quando você escolhe
Sem estudo comparativo, o raciocínio precisa ser fisiológico e operacional.
A favor do bolus:
- Nas indicações em que o efeito é agudo e mecanicamente dependente do pico — bloqueio de canal de sódio, PCR — o bolus faz mais sentido fisiológico. Você quer sobrepujar o bloqueio do canal, não manter um nível.
- Você mede depois e decide de novo. A gasometria vira o guia, não a programação da bomba.
- Erro de dose é mais visível: 70 mL é 70 mL.
A favor da infusão:
- Onde você quer corrigir devagar e evitar oscilação de sódio e osmolaridade — DRC descompensada, correção não urgente.
- Onde o volume é o objetivo (bicarbonato isotônico como fluido de ressuscitação).
A diferença que muitos ignoram: infusão contínua com solução hipertônica por horas é o pior dos dois mundos — você acumula sódio, não tem pico terapêutico, e ainda ocupa uma via. Se vai infundir por horas, infunda isotônico.
Gotejar ou usar bomba: aqui existe evidência
Não sobre bicarbonato especificamente, mas sobre infusão em geral — e o dado é forte.
Uma revisão sistemática sobre precisão de dispositivos de infusão (Therapeutic Advances in Drug Safety, 2023) mostrou que, com gotejamento por gravidade:
- Menos de 15% das observações ficaram dentro de ±10% da vazão desejada
- Apenas 21% ficaram dentro de ±20%
- E isso tem consequência mensurável: a concentração sérica de amicacina foi de 40,2 mg/L com gravidade vs 50,6 mg/L com bomba (p = 0,04)
Bombas eletrônicas erram menos, embora também subinfundam.
A conclusão prática: se você programou uma infusão contínua e ela está correndo por gravidade, você provavelmente não está entregando a dose que prescreveu — e provavelmente está entregando menos. Isso é especialmente traiçoeiro no bicarbonato, porque você olha a gasometria que não melhorou e pensa “não funcionou”, quando na verdade não foi feito.
Ou seja: se a decisão foi infundir, infunda com bomba. Se não há bomba disponível, prefira o bolus — porque um bolus feito é mais confiável que uma infusão que você acha que está correndo.
⚠️ Vale a honestidade: essa é uma extrapolação de estudos sobre infusões em geral. Não há estudo de gravidade vs bomba especificamente com bicarbonato.
E o custo operacional, que ninguém coloca no artigo
Aqui saímos da evidência e entramos numa dimensão que a literatura ignora e o plantão não deixa esquecer.
Toda infusão contínua consome três recursos escassos:
Uma bomba. Que muitas vezes é a mesma bomba que a noradrenalina precisa. Ou a sedação. Ou o antibiótico.
Um equipo e uma via. E o bicarbonato exige linha dedicada — ele é incompatível com quase tudo que corre em UTI: cálcio, catecolaminas, magnésio, midazolam. Cada infusão de bicarbonato é uma via que sai da conta.
Atenção de enfermagem. Que é o recurso mais escasso de todos.
E é aqui que o contexto pesa mais que o protocolo.
Numa UTI, você tem tempo. A relação enfermeiro-paciente permite acompanhar, o paciente tem monitorização contínua, e existem menos intercorrências simultâneas para pensar. Programar uma infusão e titular ao longo de horas é viável.
Num pronto-socorro ou numa UPA, a realidade é outra. Muitos PAs funcionam como UTI até sair uma vaga — e muitas vezes a vaga não sai. Só que a porta continua aberta. Enquanto você acompanha aquele paciente grave, chega um politrauma, chega um IAM, chega uma parada. A equipe não fica sobrecarregada porque não sabe lidar. Fica sobrecarregada porque não dá para acompanhar um paciente complexo enquanto três outros chegam.
Por isso a orientação prática que faz sentido no PA:
Se dá para fazer em bolus IV ou em infusão curta, evite a infusão contínua. A ideia é estabilizar no simples. Complexidade que você não consegue vigiar não é cuidado — é risco.
Isso não é preguiça. É reconhecer que acompanhar a evolução de hora em hora é melhor do que programar uma bomba e deixar correr. Um bolus seguido de gasometria em 30–60 minutos te dá informação. Uma infusão de 12 horas sem ninguém olhando te dá uma linha ocupada e uma falsa sensação de que algo está sendo feito.
A exceção que confirma a regra: antibióticos
Vale marcar a diferença, porque as pessoas generalizam.
Com antibióticos, infusão prolongada tem racional farmacodinâmico real — manter a concentração plasmática acima da CIM por mais tempo. É por isso que se discute meropenem em infusão estendida de 3 a 4 horas em germe multirresistente. Ali, o modo de administração é o tratamento.
Com bicarbonato, esse racional não existe. Não há alvo farmacodinâmico tempo-dependente. Você quer corrigir um pH e reavaliar.
São coisas diferentes. Não transfira a lógica de uma para a outra.
Monitorização: o que medir e quando
Não localizamos intervalo formal de repetição de gasometria em bula ou diretriz — exceto na CAD, em que o consenso orienta pH venoso a cada 4 horas até a resolução (e, se você fez bicarbonato, reavaliação a cada 2 horas para decidir se repete).
O que existe é a lista do que precisa ser olhado, e ela vem exatamente dos efeitos adversos que os ensaios encontraram:
| Parâmetro | Por quê |
|---|---|
| pH arterial | Alcalose iatrogênica (16% vs 9% no BICAR-ICU) |
| Sódio | O efeito adverso mais frequente — hipernatremia em 49% vs 29%. Na meta-análise, Na > 150 em 10% vs 4% |
| Cálcio iônico | A alcalinização aumenta a ligação do cálcio à albumina — hipocalcemia em 24% vs 15% |
| Potássio | A alcalinização desloca K⁺ para o intracelular. Crítico na CAD e na alcalinização urinária |
| Bicarbonato sérico | Para saber se o alvo foi atingido |
| PaCO₂ | O CO₂ gerado precisa sair |
| Balanço hídrico | +954 mL no segundo dia, no BICARICU-2 |
| Sítio de punção | Se for periférico, olhe. Sempre |
Repetir gasometria 30 a 60 minutos após o bolus é prática consolidada, ainda que sem respaldo formal em documento. O princípio é o que importa: fez, mediu, decidiu de novo.
O resumo que cabe no bolso
Se você levar sete coisas deste texto, que sejam estas:
- Na acidose respiratória isolada, nunca. E em qualquer indicação: só com ventilação garantida. Se o paciente não elimina CO₂, o bicarbonato piora o que você quer tratar.
- A indicação mais forte não é a mais lembrada: cardiotoxicidade por antidepressivo tricíclico — AHA 2023, COR 1. (Para cocaína e demais bloqueadores de canal de sódio, COR 2a.) Bolus de 1–2 mEq/kg até o QRS estreitar, alvo de pH 7,45–7,55, parando se o sódio passar de 155.
- Na acidose metabólica grave com LRA, o argumento mudou. Dois ensaios grandes (BICARICU-2 e SODa-BIC) não confirmaram benefício de mortalidade. O que melhor se sustenta é redução da necessidade de diálise (NNT 6) — com a ressalva de que isso vem dos ensaios abertos, e o único cegado não confirmou. Há ainda um possível nicho em pH ≤ 7,10.
- Na hipercalemia, o bicarbonato não baixa potássio. Cálcio para estabilizar, insulina + glicose e salbutamol para deslocar, ligante ou diálise para remover. Bicarbonato só se houver acidose metabólica junto — e aí, isotônico e em volume.
- 1 mL/kg de bicarbonato 8,4% = 1 mEq/kg. É o que diz a bula, é fácil de checar na pressa, e não há evidência de que fórmula de déficit faça melhor. Faça, meça, decida de novo.
- Diluído ou puro muda tudo. A 8,4% pura tem 2.000 mOsm/L e 1.000 mEq de sódio por litro. Se você vai infundir por horas, ou se só tem acesso periférico, use a solução isotônica: 150 mL de bicarbonato 8,4% em 850 mL de SG 5% (volume final 1 L, 150 mEq/L).
- Não há estudo comparando bolus e infusão. O que existe é: gotejamento por gravidade entrega dose errada (menos de 15% dentro de ±10%), e infusão contínua consome bomba, via dedicada e enfermagem. No PA, se dá para fazer em bolus ou infusão curta, faça. Estabilize no simples.
E a regra que atravessa tudo: cada caso é um caso. Existe indicação formal. Não existe dose universal.
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É lá que discutimos casos como esse — com gasometria na mesa, com a bomba que não tem, com a vaga de UTI que não sai. Médicos e estudantes trocando conduta de verdade, sem enrolação, com foco no que você usa no plantão amanhã.
Tem aula sobre gasometria e eletrólitos, tem discussão de caso, e tem gente vivendo o mesmo plantão que você.
Referências
Acidose metabólica no paciente grave
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- Bulas aprovadas pela ANVISA: Bicarbonato de Sódio 8,4% (Samtec, Halex Istar, Fresenius Kabi); Bicarbonato de Sódio 5% / 8,4% / 10% (Hypofarma).
- Rótulos do FDA: Sodium Bicarbonate Injection USP 8,4% (Pfizer/Hospira); Phebra Sodium Bicarbonate PI.
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As doses e esquemas citados seguem bulas e diretrizes referenciadas. Confira sempre a bula aprovada pela ANVISA e o protocolo da sua instituição antes de prescrever.


