Varfarina na prática: alvo de INR, ajuste de dose e o que fazer quando o exame sai da faixa

Foto de Roberto Kapobel

Roberto Kapobel

Médico | UTI | Professor | Palestrante

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Roberto Kapobel

Médico | UTI | Professor | Palestrante

Chega no plantão um paciente com prótese valvar mecânica. Trouxe o INR de hoje: 1,94.

E aí vem a pergunta que todo mundo faz: “ele está anticoagulado ou não está?”

Essa pergunta não tem resposta. Porque ela está errada.

Anticoagulação não é interruptor. Não existe “ligado” e “desligado”. Existe uma escala contínua, e sobre essa escala existe uma faixa em que o benefício supera o risco. São duas coisas diferentes, e confundir as duas é a origem de quase todo erro que a gente comete com varfarina.

INR baixo não significa “não anticoagulado”. Significa anticoagulado abaixo do necessário para aquela indicação. O paciente já tem risco de sangramento aumentado e ainda não tem a proteção que se espera.

E INR dentro do alvo não é garantia de nada. Trombose de prótese acontece com INR no alvo. Sangramento acontece com INR no alvo.

Este texto é sobre isso: como escolher o alvo, como ler um INR fora dele e o que fazer na prática, com Marevan na mão e paciente na frente.


O que a curva ensina

O trabalho que organizou esse raciocínio é antigo e continua sendo o melhor. Cannegieter e colaboradores acompanharam 1.608 portadores de prótese mecânica por 6.475 pacientes-ano em clínicas de anticoagulação holandesas e calcularam a incidência de eventos (tromboembolismo e sangramento maior) para cada faixa de INR.

O resultado desenha um U. A incidência de eventos é mais baixa e estável quando o INR fica entre 2,5 e 4,9. Abaixo disso ela sobe rápido, à custa de trombose. Acima disso ela sobe rápido, à custa de sangramento. Os autores recomendaram alvo entre 3,0 e 4,0 para deixar margem dos dois lados.

Gráfico em curva de U mostrando que o risco de trombose sobe abaixo
da faixa-alvo de INR e o risco de sangramento sobe acima dela, com destaque para o ponto de INR 1,94.

O ponto que interessa não é o número exato. É o formato da curva: o risco não desaba de um degrau para o outro, ele sobe e desce de forma gradual. Um INR de 1,94 não é “zero anticoagulação”, é um ponto na parte ascendente da curva de trombose.

Quanto pesa ficar abaixo do alvo

Na fibrilação atrial, Hylek e colaboradores quantificaram isso em um estudo caso-controle. Tomando o INR de 2,0 como referência, a chance ajustada de AVC isquêmico foi:

INROdds ratio para AVC (referência: INR 2,0)
1,72,0 (IC95% 1,6 a 2,4)
1,53,3 (IC95% 2,4 a 4,6)
1,36,0 (IC95% 3,6 a 9,8)

Repare que não é uma queda abrupta. É uma escalada progressiva conforme o INR desce. E o inverso também é verdadeiro: numa análise dos mesmos dados, INR entre 1,6 e 1,9 ainda se associou a redução de 80% ou mais do risco de AVC em comparação com INR de 1,0 a 1,1, ou seja, com o paciente não anticoagulado.

Traduzindo: meio anticoagulado protege alguma coisa. Só não protege o suficiente.

E aqui vem o dado que mais muda a cabeça. Em uma coorte de 13.559 pacientes com FA não valvar, quem teve AVC isquêmico com INR abaixo de 2,0 na admissão teve AVC mais grave (OR 1,9; IC95% 1,1 a 3,4) e mais que o triplo do risco de morrer em 30 dias (HR 3,4; IC95% 1,1 a 10,1) em comparação com quem tinha INR de 2,0 ou mais. A mortalidade com INR entre 1,5 e 1,9 foi de 18%, praticamente igual à de quem estava com INR abaixo de 1,5 (15%).

Ou seja: para a gravidade do desfecho, “quase no alvo” se comportou como “fora do alvo”. É por isso que INR de 1,94 em prótese mecânica não é um detalhe para resolver na próxima consulta.


A farmacologia que muda a conduta

Três fatos sobre a varfarina explicam quase tudo que se faz de errado com ela.

1. Ela não inibe fator nenhum que já está circulando. A varfarina bloqueia a reciclagem da vitamina K e impede a síntese de novos fatores II, VII, IX e X, além das proteínas C e S. Os fatores que já estão no plasma continuam funcionando até serem degradados. Por isso o efeito depende das meias-vidas.

2. O INR enxerga primeiro o fator VII, que é o mais curto. O fator VII cai em 4 a 7 horas. O fator II, que é quem sustenta o efeito antitrombótico, leva 60 a 72 horas. Resultado: o INR sobe antes de o paciente estar de fato protegido.

3. As proteínas C e S também caem, e caem cedo. A proteína C tem meia-vida de cerca de 8 horas. Nos primeiros dias existe uma janela em que o anticoagulante natural já foi embora e o procoagulante ainda não. É o mecanismo da necrose cutânea induzida por varfarina, que aparece tipicamente entre o terceiro e o décimo dia e é mais frequente em quem tem deficiência de proteína C ou S e em quem recebeu dose de ataque alta sem heparina junto.

Gráfico de barras com as meias-vidas dos fatores II, VII, IX, X e das
proteínas C e S, e linha do tempo dos primeiros sete dias comparando a subida do INR com a queda
do fator II.

A bula do Marevan traz os números: início do efeito anticoagulante em 24 a 72 horas, efeito máximo em 72 a 96 horas, duração de uma dose única de 2 a 5 dias, meia-vida plasmática de 36 a 42 horas.

As duas consequências práticas

Na trombose aguda, não desligue a heparina no primeiro INR em faixa. A regra do BSH é: manter o anticoagulante parenteral (HNF, HBPM ou fondaparinux) por pelo menos 5 dias e até o INR ficar maior ou igual a 2,0 por pelo menos 24 horas, o que for mais longo. Suspender a heparina no segundo dia porque “o INR chegou a 2,1” é entregar um paciente com fator II ainda intacto.

Toda mudança de dose só se lê 5 a 7 dias depois. Se você aumentou a dose ontem e pediu INR hoje, você está medindo a dose anterior. Perseguir o INR de 48 horas atrás é a receita para oscilação eterna.


O alvo é da indicação, não do paciente

Antes de olhar o número, você precisa saber qual era o alvo. E o alvo depende da razão pela qual aquele paciente usa varfarina.

Uma convenção útil, que o BSH adota: fale em alvo, não em faixa. A faixa é o alvo mais ou menos 0,5. Alvo 2,5 significa faixa de 2,0 a 3,0. Estreitar a faixa artificialmente (2,0 a 2,5, por exemplo) não melhora o controle, só aumenta o número de exames e o número de resultados considerados “fora”.

Tabela visual com as faixas de INR recomendadas para tromboembolismo
venoso, síndrome antifosfolípide, fibrilação atrial, cardioversão, bioprótese e prótese mecânica
em suas diferentes posições e níveis de trombogenicidade.

Tromboembolismo venoso

Primeiro episódio: alvo 2,5 (BSH 1A). Não se recomenda baixar o alvo depois dos 3 meses em quem segue anticoagulado, porque a estratégia de baixa intensidade mostrou pior eficácia com sangramento semelhante.

Recorrência de TEV em vigência de INR dentro do alvo: sugere-se subir o alvo para 3,5 (2C). Guarde essa regra, ela é o exemplo mais claro de que “estar no alvo” não é o fim da conversa.

Síndrome antifosfolípide

Alvo 2,5 (BSH 1A). Aqui a intuição engana. Dois ensaios randomizados (Crowther 2003 e Finazzi 2005) compararam alvo alto com alvo convencional e não mostraram benefício da alta intensidade. Alvo 3,5 nesse cenário é sangramento sem ganho.

Fibrilação atrial

A Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial 2025 mantém os DOACs como preferência, com duas exceções em que a varfarina continua sendo a escolha: estenose mitral reumática moderada a grave e prótese valvar mecânica. Nesses casos, alvo de INR entre 2,0 e 3,0.

Vale registrar dois pontos operacionais da diretriz: o escore de risco tromboembólico passou a ser o CHA₂DS₂-VA (pontuação maior ou igual a 2 anticoagula, zero não anticoagula, 1 se individualiza) e o INR lábil pontua no HAS-BLED.

Cardioversão eletiva

Três semanas antes e quatro semanas depois, alvo 2,5. Um detalhe prático: a Diretriz Brasileira de FA 2025 conta o tempo de anticoagulação a partir do primeiro INR dentro da faixa de 2,0 a 3,0, não a partir do primeiro comprimido. Alguns serviços adotam alvo 3,0 nas semanas que antecedem o procedimento justamente para não cancelar cardioversão por INR baixo no dia.

Prótese valvar mecânica

Este é o cenário em que o alvo mais varia, e o que o paciente do início do texto tem.

ACC/AHA 2020 (todas Classe 1):

SituaçãoINR alvo
Prótese aórtica bivalvular ou de disco basculante de geração atual, sem fatores de risco2,5
Prótese aórtica com fator de risco (estado de hipercoagulabilidade, disfunção de VE, tromboembolismo prévio) ou prótese de geração antiga3,0
Prótese mecânica mitral3,0
Prótese aórtica On-X isolada, sem fatores de risco, a partir de 3 meses da cirurgia1,5 a 2,0 associado a AAS 75 a 100 mg (Classe 2b)

Diretrizes Brasileiras de Valvopatias 2020: alvo padrão de 2,0 a 3,0, subindo para 2,5 a 3,5 em quatro situações: prótese mecânica mitral, prótese mecânica aórtica associada a fibrilação atrial, estados de hipercoagulabilidade e evento cardioembólico ocorrido com INR entre 2,0 e 3,0.

BSH 2011 organiza por trombogenicidade da prótese e por fatores de risco do paciente:

Trombogenicidade da próteseSem fatores de riscoCom fatores de risco
Baixa (Carbomedics aórtica, Medtronic Hall, St. Jude sem silzone)2,53,0
Média (Björk-Shiley, demais bivalvulares)3,03,5
Alta (Starr-Edwards, Omniscience, Lillehei-Kaster)3,53,5

Fatores de risco do paciente, na mesma tabela: posição mitral, tricúspide ou pulmonar; tromboembolismo arterial prévio; fibrilação atrial; átrio esquerdo maior que 50 mm; estenose mitral de qualquer grau; fração de ejeção abaixo de 35%; contraste espontâneo denso em átrio esquerdo. O BSH limita o teto em 3,5, por não considerar que alvos maiores compensem o sangramento adicional.

As diretrizes europeias de 2025 mantiveram a mesma lógica: anticoagulação vitalícia com antagonista da vitamina K, alvo individualizado por tipo e posição de prótese e por comorbidades, e recomendação forte de educação do paciente e de automonitorização do INR.

E os DOACs?

Em prótese mecânica, não. Dois ensaios foram interrompidos precocemente:

  • RE-ALIGN (dabigatrana versus varfarina): AVC em 5% versus 0% e sangramento maior em 4% versus 2%.
  • PROACT Xa (apixabana versus varfarina, apenas prótese On-X aórtica, a partir de 3 meses da cirurgia): 863 pacientes incluídos, 20 eventos de trombose de prótese ou tromboembolismo relacionado à prótese com apixabana contra 6 com varfarina, incluindo 14 AVCs tromboembólicos no braço da apixabana contra nenhum no da varfarina.

Ou seja: nem a prótese de menor trombogenicidade, nem o DOAC de melhor perfil, nem o desenho mais favorável. Prótese mecânica é varfarina.


Voltando ao INR 1,94

Agora dá para responder o caso com precisão.

Está anticoagulado? Está. Só que abaixo do alvo em praticamente todo cenário de prótese mecânica: mitral (alvo 3,0), aórtica com fator de risco (3,0), alta trombogenicidade (3,5). Mesmo na aórtica bivalvular sem fatores, cujo alvo é 2,5 com faixa de 2,0 a 3,0, ele está no limite inferior ou logo abaixo dele.

É emergência? Não, se ele estiver assintomático. Não há indicação de reverter nada, e não existe “antídoto para INR baixo”.

Dá para deixar para a próxima consulta? Também não. A anticoagulação subterapêutica é o principal fator na gênese da trombose de prótese mecânica. Não tratar isso ativamente é aceitar o risco pelo paciente.

Então o que se faz?

  1. Procurar o motivo. Adesão, comprimido trocado, antibiótico ou anticonvulsivante novo, mudança de dieta, diarreia, troca de fabricante. Sem causa identificada, o ajuste de dose vira tentativa e erro.
  2. Ajustar a dose semanal e refazer o INR mais cedo, em 5 a 7 dias, até estabilizar dentro da faixa específica da prótese daquele paciente.
  3. Decidir sobre ponte com heparina conforme o risco, o que veremos adiante.
  4. Procurar sinal de disfunção protética. Dispneia nova, sopro alterado, evento embólico. Se houver qualquer um deles associado ao INR baixo, a conversa muda completamente: a suspeita passa a ser trombose de prótese, e isso pede ecocardiograma (transtorácico e frequentemente transesofágico), cinefluoroscopia ou tomografia, com avaliação urgente. O tratamento nesse cenário vai de heparina a trombólise ou cirurgia, dependendo do grau de obstrução e do estado hemodinâmico.

INR fora da faixa: o roteiro

Fluxograma com duas colunas, uma para INR abaixo do alvo e outra para
INR acima do alvo, com as condutas recomendadas em cada faixa.

Abaixo do alvo

A primeira pergunta não é “quanto aumento a dose”. É “o que acontece com este paciente se ele ficar fora nos próximos dias?”

Alto risco, em que se considera ponte com heparina:

  • TEV há menos de 3 meses. Nas primeiras semanas o risco de recorrência sem anticoagulação é altíssimo, e o BSH sugere considerar ponte se o INR ficar significativamente subterapêutico no primeiro mês após o evento agudo.
  • Prótese mecânica em posição mitral.
  • Fibrilação atrial com AVC ou AIT prévio, ou múltiplos fatores de risco.

Risco menor, em que não se faz ponte de rotina:

  • Fibrilação atrial sem AVC ou AIT prévio.
  • Prótese aórtica bivalvular sem outros fatores de risco.

Depois disso, o ajuste. E o ajuste se faz na dose da semana, não na dose do dia.

Acima do alvo

Aqui existe um reflexo que atrapalha: dar vitamina K em todo INR alto. As recomendações são mais contidas do que a prática.

SituaçãoConduta
Acima do alvo, abaixo de 5,0, sem sangramentoReduzir ou omitir uma dose e retomar com dose menor
INR acima de 5,0, sem sangramentoOmitir 1 a 2 doses, reduzir a manutenção e investigar a causa (BSH 1B)
INR entre 4,5 e 10, sem sangramento clinicamente relevanteASH 2018 sugere apenas suspender a varfarina, sem vitamina K (recomendação condicional, certeza muito baixa)
INR acima de 8,0, sem sangramentoVitamina K 1 a 5 mg por via oral (BSH 1B)
Sangramento não maiorVitamina K 1 a 3 mg por via intravenosa (BSH 1B)
Sangramento maior ou ameaçador à vidaCCP de 4 fatores 25 a 50 U/kg mais vitamina K 5 mg IV (BSH 1B). Plasma fresco só se não houver CCP (1C)

Três detalhes que evitam erro:

  • Vitamina K nunca por via subcutânea, pela correção errática, e evite a intramuscular pelo risco de hematoma em paciente anticoagulado.
  • Fator VIIa recombinante não é recomendado para reversão de varfarina (BSH 1B). Ele corrige o INR e não há demonstração de que resolva o sangramento.
  • CCP de 3 fatores corrige mal, porque tem pouco fator VII. Se for usar, use o de 4 fatores. E sempre com vitamina K junto, porque a meia-vida do fator VII infundido é curta.

E uma observação que vale por si: sangramento com INR dentro do alvo pede investigação, não ajuste de dose. Hematúria não é efeito esperado da anticoagulação. Paciente com hematúria e INR terapêutico merece investigação de trato urinário.

Traumatismo craniano em uso de varfarina

Ponto de plantão, direto do BSH:

  • Dosar INR em todo paciente em uso de varfarina que chega com TCE, por menor que seja.
  • Limiar mais baixo para tomografia. Se o trauma foi suficiente para causar laceração ou hematoma de face ou couro cabeludo, ou cefaleia persistente, faça a TC.
  • Se há forte suspeita de hematoma intracraniano, reverta antes do resultado da TC e do INR.
  • Sangramento tardio ocorre mesmo com TC inicial normal. Se o INR estava supraterapêutico, corrija para a faixa e mantenha o INR o mais próximo possível de 2,0 nas quatro semanas seguintes.

Como iniciar sem errar

Conheça o comprimido

O Marevan existe em 2,5 mg, 5 mg e 7,5 mg, e cada concentração tem uma cor diferente por causa do corante do excipiente (amarelo de quinolina no de 2,5 mg, vermelho ponceau 4R no de 5 mg e azul FDC nº 1 no de 7,5 mg). Isso ajuda e engana ao mesmo tempo: cor e aparência mudam entre fabricantes. Oriente o paciente a conferir a dose escrita na caixa a cada compra, principalmente quando troca de marca ou de genérico.

A bula permite partir o comprimido ao meio, o que dá flexibilidade real de dose semanal.

A dose inicial

Conforme a bula: 2,5 a 5 mg por dia, com ajuste pelo INR. Manutenção habitual entre 2,5 e 10 mg por dia.

O que a evidência acrescenta:

  • Não há vantagem da dose de ataque de 10 mg sobre a de 5 mg (BSH 2B).
  • No idoso, doses iniciais menores ou ajustadas pela idade produzem menos INR alto fora de faixa (2B).
  • Não se justifica iniciar guiado por genotipagem de CYP2C9 e VKORC1, porque a resposta às primeiras doses prediz a manutenção tão bem quanto o genótipo (2B).
  • Ambulatorialmente, em quem não precisa de anticoagulação rápida (o caso típico é a FA sem evento agudo), um regime de introdução lenta é seguro e atinge a faixa terapêutica na maioria dos pacientes em 3 a 4 semanas (2C).

A regra que não se negocia na trombose aguda

Anticoagulante parenteral junto, por pelo menos 5 dias e até o INR estar maior ou igual a 2,0 por pelo menos 24 horas.

Não é burocracia. É o fator II.


Ajuste de dose: pense na semana

O erro mais comum no ajuste é mexer na dose diária e checar cedo demais.

O raciocínio correto:

  1. Some a dose da semana inteira. Um paciente que toma 5 mg em cinco dias e 2,5 mg em dois dias usa 30 mg por semana. Esse é o número que você ajusta.
  2. Ajuste em percentual. A convenção mais usada trabalha com variações de 5% a 20% da dose semanal total, sendo mais suave (5% a 10%) quando o INR está perto do alvo e mais firme (15% a 20%) quando está distante.
  3. Redistribua pela semana usando meios comprimidos. Trinta miligramas por semana podem virar 27,5 mg com um único ajuste de meio comprimido em um dia.
  4. Recheque em 5 a 7 dias. Antes disso você está lendo a dose antiga.
  5. Um único INR discretamente fora, sem causa identificada e em paciente historicamente estável, muitas vezes não pede mudança de dose. Pede repetição.

Duas ferramentas que a evidência apoia e que a gente subutiliza:

  • Dosagem assistida por computador é superior à dosagem manual (BSH 1A), com mais tempo na faixa e menos eventos.
  • Autoteste e automanejo melhoram o controle (BSH 2B). O ASH 2018 chega a fazer recomendação forte para automanejo do INR com monitor domiciliar em pacientes aptos.

E uma regra simples que reduz erro: todo paciente em varfarina precisa sair da consulta com o resultado escrito, a dose escrita e a data do próximo exame (BSH 2C). Ele precisa saber por que anticoagula, qual é o alvo dele e por quanto tempo.


TTR: o número que mede a qualidade

Um INR isolado diz pouco. O que prediz desfecho é o tempo na faixa terapêutica (TTR), ou seja, a porcentagem do tempo em que o paciente ficou dentro da faixa.

Referências de qualidade: TTR maior ou igual a 65% pelo NICE e maior ou igual a 70% pela sociedade europeia. Na América Latina, a mediana de TTR fica em torno de 60%, na extremidade inferior do recomendado.

Por que isso importa no consultório e no plantão:

  • Paciente com TTR ruim está mais tempo exposto ao risco dos dois lados da curva.
  • INR lábil pontua no HAS-BLED. O paciente instável não é só mal controlado, ele é formalmente de maior risco de sangramento.
  • Se o TTR é persistentemente ruim, sem causa corrigível, e a indicação permite DOAC (ou seja, não é prótese mecânica nem estenose mitral reumática moderada a grave), essa é uma conversa que precisa ser aberta.

Vale lembrar que no Brasil a varfarina é classificada como medicamento de alta vigilância pelo ISMP, e está entre os fármacos mais relacionados a erro de dispensação.


Interações e dieta: o que realmente muda o INR

Medicamentos

A revisão sistemática com meta-análise mais recente sobre o tema reuniu 72 estudos e mais de 3,7 milhões de pacientes. O aumento de sangramento clinicamente relevante quando se associa à varfarina:

ClasseOR (IC95%)
AINEs, incluindo inibidores de COX-21,83 (1,29 a 2,59)
Antiplaquetários1,74 (1,56 a 1,94)
Mirtazapina1,75 (1,30 a 2,36)
Antimicrobianos1,63 (1,45 a 1,83)
ISRS1,62 (1,42 a 1,85)

Uma nuance útil: na mesma meta-análise, a associação de amiodarona não aumentou de forma significativa o sangramento clinicamente relevante (OR 1,29; IC95% 0,94 a 1,79). Isso não significa que a interação não exista, ela é conhecida e dose-dependente. Significa que ela é manejável com monitorização, e não uma contraindicação.

Entre os antimicrobianos, os que mais exigem atenção por inibirem o metabolismo da varfarina são sulfametoxazol-trimetoprima, metronidazol e fluconazol. A literatura de farmácia clínica descreve necessidade de redução de 25% a 40% da dose de varfarina com sulfametoxazol-trimetoprima e metronidazol, e efeito dose-dependente com fluconazol e amiodarona.

A regra operacional do BSH resolve a maior parte dos casos: todo paciente em varfarina que recebe uma droga potencialmente interagente deve fazer INR em 3 a 5 dias. Para cursos curtos, ajuste preventivo de dose não é essencial. Para uso que vá durar mais de 7 dias, dose o INR entre o terceiro e o sétimo dia e ajuste pelo resultado.

Dieta

Aqui mora o conselho mais repetido e mais errado do consultório: “não pode comer verdura”.

O que a evidência mostra é o oposto. Tanto a estabilidade do INR quanto o TTR se relacionam à consistência da ingestão de vitamina K, não à sua ausência. Paciente que come pouca vitamina K tem controle pior, porque qualquer variação absoluta representa uma variação relativa enorme.

Mais do que isso: em pacientes com INR instável sem causa explicada, suplementar 100 a 150 µg de vitamina K por dia melhora o controle da anticoagulação (BSH 2B).

A orientação correta é: coma o que você já comia, na mesma frequência, todas as semanas. Se você come salada três vezes por semana, continue comendo três vezes por semana.

Álcool também conta. Ingestão aguda e pesada tende a elevar o INR; consumo crônico tende a reduzi-lo.


Perioperatório: menos ponte do que a gente acha

O ensaio que mudou essa prática foi o BRIDGE, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com pacientes em FA (CHADS₂ médio de 2,3) que precisavam interromper a varfarina para procedimento eletivo:

Desfecho em 30 diasSem ponteCom dalteparina
Tromboembolismo arterial0,4%0,3% (não inferioridade demonstrada)
Sangramento maior1,3%3,2% (p = 0,005)
Sangramento menor12,0%20,9% (p < 0,001)

Ou seja: pontear não preveniu evento e triplicou sangramento maior.

Atenção a uma limitação que muda tudo: o BRIDGE excluiu portadores de prótese valvar mecânica e incluiu poucos pacientes com CHADS₂ de 5 ou 6. Não extrapole o resultado para esses grupos.

O roteiro prático

  • Suspender a varfarina 5 dias antes do procedimento.
  • Dosar INR na véspera. Se estiver maior ou igual a 1,5, vitamina K por via oral, o que reduz cancelamento no dia.
  • Sem ponte: FA de baixo risco (sem AVC ou AIT prévio) e prótese aórtica bivalvular sem outros fatores de risco (BSH 2C).
  • Considerar ponte: TEV nos últimos 3 meses, FA com AVC ou AIT prévio ou múltiplos fatores de risco, e prótese mecânica mitral (BSH 2C).
  • Se pontear: última dose de HBPM pelo menos 24 horas antes. A ponte pré-operatória tem risco baixo de sangramento; a pós-operatória, não. Não reinicie a ponte antes de 48 horas em cirurgia de alto risco de sangramento (BSH 1C).
  • Reiniciar a varfarina na dose de manutenção habitual, na noite da cirurgia ou no dia seguinte, se a hemostasia estiver adequada.
  • Nem todo procedimento exige suspensão. Infiltração articular, cirurgia de catarata e determinados procedimentos endoscópicos, incluindo biópsia de mucosa, podem ser feitos com a varfarina mantida.

Um dado do BSH que ajuda a calibrar a conversa com o paciente: sangramento é fatal em cerca de 3% dos casos, enquanto tromboembolismo arterial que resulta em AVC é fatal em 40% e deixa incapacidade grave em 30%. Os dois riscos são reais, mas não têm o mesmo peso.


Sete erros que se repetem no plantão

1. Tratar o INR como interruptor. “Não está anticoagulado” e “está fora do alvo” são coisas diferentes, com condutas diferentes.

2. Suspender a heparina no primeiro INR maior que 2. São 5 dias e 24 horas de INR em faixa, o que for mais longo.

3. Ajustar a dose diária e rechecar em 48 horas. Ajuste a dose semanal e recheque em 5 a 7 dias.

4. Dar vitamina K por reflexo em INR alto assintomático. Entre 4,5 e 10 sem sangramento, o ASH 2018 sugere apenas suspender.

5. Pontear todo mundo no perioperatório. O BRIDGE mostrou o custo disso. Ponte é para quem tem risco alto de fato.

6. Proibir verdura. O que estabiliza o INR é constância, não abstinência. E em INR instável sem causa, suplementar vitamina K melhora o controle.

7. Repetir a mesma conduta depois de um evento com INR no alvo. Trombose de prótese ou recorrência de TEV com anticoagulação dentro da faixa pede subir o alvo ou associar antiplaquetário, não insistir no mesmo número.

E um bônus que é erro grave: DOAC em prótese mecânica ou em estenose mitral reumática moderada a grave. RE-ALIGN e PROACT Xa fecharam essa porta.


O resumo que cabe no bolso

  1. Anticoagulação é contínua, o alvo é uma faixa. INR baixo é anticoagulação insuficiente, não ausência de anticoagulação. E INR no alvo não é garantia de proteção.
  2. Ficar “quase no alvo” custa caro. Na FA, o risco de AVC dobra em INR 1,7 e sextuplica em 1,3. E a mortalidade em 30 dias com INR de 1,5 a 1,9 foi praticamente igual à de INR abaixo de 1,5.
  3. O INR mede o fator VII, o efeito antitrombótico depende do fator II. Por isso: parenteral por pelo menos 5 dias e até INR maior ou igual a 2,0 por 24 horas, e leitura de qualquer ajuste apenas 5 a 7 dias depois.
  4. O alvo é da indicação. TEV, SAF, FA e cardioversão usam 2,5. Prótese mecânica varia de 2,5 a 3,5 conforme posição, trombogenicidade e fatores de risco do paciente. Recorrência com INR no alvo sobe para 3,5.
  5. INR alto assintomático quase nunca precisa de vitamina K. Acima de 8,0, 1 a 5 mg por via oral. Sangramento maior é CCP de 4 fatores mais vitamina K IV.
  6. Ajuste a dose da semana, em 5% a 20%, e recheque em 5 a 7 dias. Antes disso, você está medindo o passado.
  7. TTR é o que prediz desfecho. Meta de 65% a 70%. Constância na dieta, INR 3 a 5 dias após qualquer droga nova e registro escrito para o paciente são as três medidas que mais melhoram esse número.

E a frase que atravessa tudo: o objetivo não é ter um INR bonito. É manter o paciente dentro da faixa o maior tempo possível.


Continue estudando com a gente

Se este conteúdo te ajudou a organizar o raciocínio, é exatamente isso que a gente faz todo dia na Comunidade Arkamed.

É lá que discutimos casos como esse, com o INR na mesa, a prótese que a gente não sabe qual é, o paciente que trocou de genérico e o antibiótico que ninguém avisou. Médicos e estudantes trocando conduta de verdade, sem enrolação, com foco no que você usa no plantão amanhã.

Se você quer parar de reagir ao número e passar a conduzir a anticoagulação com critério, é aqui que essa formação acontece.


Referências

Intensidade da anticoagulação e desfechos

  • Cannegieter SC, Rosendaal FR, Wintzen AR, van der Meer FJM, Vandenbroucke JP, Briët E. Optimal oral anticoagulant therapy in patients with mechanical heart valves. N Engl J Med. 1995;333(1):11-17.
  • Hylek EM, Skates SJ, Sheehan MA, Singer DE. An analysis of the lowest effective intensity of prophylactic anticoagulation for patients with nonrheumatic atrial fibrillation. N Engl J Med. 1996;335(8):540-546.
  • Hylek EM, Go AS, Chang Y, et al. Effect of intensity of oral anticoagulation on stroke severity and mortality in atrial fibrillation. N Engl J Med. 2003;349(11):1019-1026.

Diretrizes de manejo da varfarina

  • Keeling D, Baglin T, Tait C, et al.; British Committee for Standards in Haematology. Guidelines on oral anticoagulation with warfarin, fourth edition. Br J Haematol. 2011;154(3):311-324.
  • Witt DM, Nieuwlaat R, Clark NP, et al. American Society of Hematology 2018 guidelines for management of venous thromboembolism: optimal management of anticoagulation therapy. Blood Adv. 2018;2(22):3257-3291.

Fibrilação atrial e valvopatias

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  • Tarasoutchi F, et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;115(4):720-775.
  • Otto CM, Nishimura RA, Bonow RO, et al. 2020 ACC/AHA Guideline for the Management of Patients With Valvular Heart Disease. J Am Coll Cardiol. 2021;77(4):e25-e197.
  • Praz F, Borger MA, Lanz J, et al. 2025 ESC/EACTS Guidelines for the management of valvular heart disease. European Society of Cardiology / European Association for Cardio-Thoracic Surgery, 2025.
  • Soria Jiménez CE, Papolos AI, Kenigsberg BB, et al. Management of Mechanical Prosthetic Heart Valve Thrombosis: JACC Review Topic of the Week. J Am Coll Cardiol. 2023;81(21):2115-2127.

Anticoagulantes orais diretos em prótese mecânica

  • Eikelboom JW, Connolly SJ, Brueckmann M, et al. Dabigatran versus Warfarin in Patients with Mechanical Heart Valves (RE-ALIGN). N Engl J Med. 2013;369(13):1206-1214.
  • PROACT Xa Investigators. Apixaban or Warfarin in Patients with an On-X Mechanical Aortic Valve. NEJM Evidence. 2023. doi:10.1056/EVIDoa2300067

Síndrome antifosfolípide

  • Crowther MA, Ginsberg JS, Julian J, et al. A comparison of two intensities of warfarin for the prevention of recurrent thrombosis in patients with the antiphospholipid antibody syndrome. N Engl J Med. 2003;349(12):1133-1138.
  • Finazzi G, Marchioli R, Brancaccio V, et al. A randomized clinical trial of high-intensity warfarin vs. conventional antithrombotic therapy for the prevention of recurrent thrombosis in patients with the antiphospholipid syndrome (WAPS). J Thromb Haemost. 2005;3(5):848-853.

Perioperatório

  • Douketis JD, Spyropoulos AC, Kaatz S, et al. Perioperative Bridging Anticoagulation in Patients with Atrial Fibrillation (BRIDGE). N Engl J Med. 2015;373(9):823-833.

Interações e dieta

  • Wang M, Zeraatkar D, Obeda M, et al. Drug-drug interactions with warfarin: a systematic review and meta-analysis. Br J Clin Pharmacol. 2021;87(11):4051-4100.
  • Vazquez SR. Drug-drug interactions in an era of multiple anticoagulants: a focus on clinically relevant drug interactions. Blood. 2018;132(21):2230-2239.
  • Sconce E, Avery P, Wynne H, Kamali F. Vitamin K supplementation can improve stability of anticoagulation for patients with unexplained variability in response to warfarin. Blood. 2007;109(6):2419-2423.

Farmacologia, produto e segurança

  • Bula do profissional aprovada pela ANVISA: Marevan (varfarina sódica), comprimidos de 2,5 mg, 5 mg e 7,5 mg (Farmoquímica S/A).
  • Ahouagi AE, Simone DE, Azevedo E Silva E, et al. Varfarina: erros de medicação, riscos e práticas seguras na utilização. Boletim ISMP Brasil.

As doses e os alvos citados seguem as bulas e diretrizes referenciadas. Confira sempre a bula aprovada pela ANVISA e o protocolo da sua instituição antes de prescrever.

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