Hipercalemia: como corrigir o potássio alto no plantão em 3 passos (sem errar a dose)

Foto de Roberto Kapobel

Roberto Kapobel

Médico | UTI | Professor | Palestrante

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Médico | UTI | Professor | Palestrante

Três da manhã. Chega o laboratório: potássio de 7,2. O paciente é renal crônico, usa enalapril e espironolactona e está “só um pouco fraco”. Eu olho o monitor e vejo uma onda T pontuda que ninguém tinha reparado.

Essa cena resume por que eu levo a hipercalemia tão a sério. Pra mim, ela é o distúrbio eletrolítico que mais mata no plantão. E mata rápido, pelo coração, muitas vezes sem avisar muito antes.

Neste texto eu te mostro como eu corrijo o potássio alto, passo a passo: o que a diretriz manda, onde eu faço diferente e os erros que eu vejo se repetirem na emergência.


Por que a hipercalemia mata

O potássio é o principal determinante do potencial de repouso das células excitáveis, como o cardiomiócito. Mexeu no potássio extracelular, mexeu na eletricidade do coração. O resultado final é arritmia, bradicardia grave e parada.

Os números acompanham essa impressão de plantão. Numa série de internações clínicas agudas citada pela diretriz do UK Kidney Association (UKKA), a mortalidade hospitalar foi de 18,1% com hipercalemia, contra 5,0% com hipocalemia e 3,9% com potássio normal. Na hipercalemia grave, há relatos de mortalidade intra-hospitalar acima de 30%. É associação, não prova de causa, mas é o suficiente para eu nunca tratar um potássio de 6,5 como “exame alterado”.


Quando eu chamo de hipercalemia (e quando eu corro)

A UKKA 2023 define hipercalemia como potássio ≥ 5,5 mmol/L e classifica assim:

GravidadePotássio (mmol/L = mEq/L)
Leve5,5 a 5,9
Moderada6,0 a 6,4
Grave≥ 6,5

Duas regras práticas da diretriz que eu sigo sempre:

  • Potássio ≥ 6,0: ECG de 12 derivações na hora.
  • Potássio ≥ 6,5 ou ECG alterado: monitor cardíaco contínuo.

E um cuidado: pseudo-hipercalemia existe. Amostra hemolisada, garrote demorado, coleta difícil. Enquanto o laboratório não confirma, a UKKA orienta medir o potássio na gasometria (arterial ou venosa). Mas se o ECG está alterado, eu não fico esperando nova coleta para tratar.

O ECG que você precisa reconhecer

Onda T apiculada, onda P diminuindo, QRS alargando, bradicardia, até o padrão sinusoidal e a taquicardia ventricular. Qualquer uma dessas alterações significa, pra mim, hipercalemia com toxicidade cardíaca. É indicação de cálcio.

Quem faz hipercalemia

Na prática, quase sempre é uma combinação: rim que não excreta (DRC, lesão renal aguda) somado a droga que segura potássio (IECA, BRA, espironolactona, eplerenona, finerenona, amilorida, trimetoprima, AINE, betabloqueador, ciclosporina, tacrolimus, heparina) ou a potássio saindo da célula (rabdomiólise, hemólise, lise tumoral, deficiência de insulina, acidose, intoxicação digitálica). Substituto de sal “light” também entra na conta, porque troca sódio por potássio.

Descobrir a causa é o que evita o paciente voltar amanhã com o mesmo potássio.


Os 3 passos para corrigir o potássio alto (e o quarto que ninguém faz)

Passo 1: proteger o coração com cálcio

O cálcio não baixa o potássio. Ele estabiliza a membrana do miocárdio e te dá tempo para o resto funcionar. O efeito começa em poucos minutos e dura cerca de 30 a 60 minutos.

O que a diretriz diz. A UKKA 2023 recomenda uma dose equivalente de 6,8 mmol de cálcio IV em quem tem alteração no ECG:

  • Gluconato de cálcio 10%: 30 mL IV em 10 minutos, ou
  • Cloreto de cálcio 10%: 10 mL IV em 5 minutos, preferido na parada ou peri-parada.

A diretriz prefere a dose cheia de uma vez, em vez de doses sequenciais.

Como eu faço. Na hipercalemia grave, eu faço 1 ampola (10 mL) de gluconato de cálcio 10% IV lento, com o paciente monitorizado. Reavalio o ECG e o paciente em 3 a 5 minutos. Se a alteração continua, faço outra ampola. E repito até reverter a alteração do ECG e os sintomas.

A diferença é de estratégia: a diretriz entrega a dose cheia de uma vez; eu titulo pela resposta, olhando o monitor. O que não pode é fazer uma única ampola, ver o ECG igual e concluir que “o cálcio não funcionou”. Uma ampola de gluconato é um terço da dose que a diretriz considera adequada.

Passo 2: jogar o potássio para dentro da célula

Insulina com glicose (a “solução polarizante”)

É a droga mais eficaz para deslocar o potássio para dentro da célula. A insulina ativa a bomba Na⁺/K⁺-ATPase e o potássio entra.

  • Insulina regular 10 UI + 25 g de glicose IV (25 g = 50 mL de glicose 50%, ou seja, 5 ampolas de 10 mL).
  • A UKKA recomenda para hipercalemia grave (≥ 6,5) e sugere para moderada (6,0 a 6,4).

Na meta-análise do ILCOR de 2025, insulina com glicose e salbutamol reduziram o potássio em torno de 0,7 a 1,2 mmol/L.

Salbutamol nebulizado

  • 10 a 20 mg por nebulização, como adjuvante da insulina.
  • A UKKA é explícita: salbutamol não deve ser usado sozinho na hipercalemia grave.

Bicarbonato de sódio: só se houver acidose metabólica

Aqui eu quero que você entenda o mecanismo, porque ele explica a indicação.

Quando você alcaliniza o sangue, o H⁺ sai da célula para tamponar o meio extracelular. Para manter a neutralidade elétrica, o K⁺ entra na célula no lugar dele. É uma troca H⁺/K⁺. Na teoria, o potássio sérico cai.

Na prática, esse efeito é pequeno quando o paciente não está acidótico. A própria UKKA reconhece que poucos estudos mostraram benefício do bicarbonato na hipercalemia, sem mudança significativa do potássio nos estudos de curto prazo, e sugere não usar bicarbonato IV de rotina no tratamento agudo.

Por isso a minha regra é simples: bicarbonato só entra se houver acidose metabólica. Aí ele trata a acidose e ajuda no potássio. Sem acidose, você só troca um problema por outro: sobrecarga de sódio, hipernatremia, alcalose.

Dois cuidados: cálcio e bicarbonato nunca na mesma via (precipita) e, se for para dar volume, prefira a forma isotônica. Eu detalho isso no artigo sobre bicarbonato de sódio: quando, quanto e como administrar.

O dextro: onde a hipercalemia vira hipoglicemia

Esse é o ponto que eu mais vejo falhar no plantão. O potássio é corrigido, todo mundo relaxa, e horas depois o paciente está hipoglicêmico no leito. A UKKA descreve a incidência de hipoglicemia após insulina com glicose como inaceitavelmente alta.

O que a diretriz recomenda:

  • Meça a glicemia antes de fazer a insulina.
  • Se a glicemia pré-tratamento for menor que 7 mmol/L (cerca de 126 mg/dL), inicie glicose 10% a 50 mL/h por 5 horas depois da insulina.
  • Dextro seriado em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 minutos em todos os pacientes.

Deixe os horários prescritos. “Dextro se necessário” não é monitorização.

Passo 3: tirar o potássio do corpo

Os passos 1 e 2 ganham tempo. O passo 3 é o que resolve.

Ciclossilicato de zircônio sódico (Lokelma): 10 g VO 3 vezes ao dia, por até 48 horas conforme bula. A UKKA recomenda seu uso na hipercalemia grave e sugere considerar na moderada.

Resinas de troca (poliestirenossulfonato de sódio ou de cálcio): não são droga de emergência. A bula do Kayexalate traz a limitação de uso de forma explícita, porque o início de ação é tardio. E não associe sorbitol: a maioria dos casos de necrose intestinal, alguns fatais, envolveu o uso concomitante, e a bula não recomenda a combinação. A UKKA 2023 retirou a resina do tratamento agudo de rotina.

Furosemida: remove potássio pela urina, desde que o paciente urine e não esteja hipovolêmico. Eu começo com 20 a 40 mg IV e ajusto pela resposta.

Hemodiálise: é a remoção definitiva. No paciente dialítico com potássio ≥ 6,5, a UKKA recomenda diálise de urgência. No refratário ao tratamento clínico, a decisão é com nefrologia ou terapia intensiva. Um detalhe que pega muita gente: depois da sessão existe rebote. Em até 6 horas após a diálise, cerca de 70% da queda do potássio pode ser desfeita pela saída de potássio das células. Dose de novo.

Passo 4: medir de novo

O passo que ninguém faz. Insulina e salbutamol têm efeito transitório, e o potássio volta a subir quando o efeito passa.

  • Potássio em 1, 2, 4, 6 e 24 horas após o tratamento (UKKA).
  • Glicemia até 6 horas após a insulina.
  • ECG de novo depois do tratamento.
  • Suspenda o que causou: IECA, BRA, espironolactona, AINE, trimetoprima. Na doença aguda, a UKKA recomenda suspender os bloqueadores do sistema renina-angiotensina-aldosterona.

Depois que estabilizou: não esqueça o crônico

O paciente que fez hipercalemia uma vez vai fazer de novo se nada mudar. Antes da alta: revise as medicações, oriente sobre substitutos de sal e alimentos processados ricos em potássio, trate a acidose metabólica crônica se existir e converse com o nefrologista ou cardiologista sobre ligadores de potássio para manter o IECA, o BRA ou a espironolactona em quem precisa deles.


Os erros que eu mais vejo

  • Achar que cálcio baixa potássio.
  • Fazer uma ampola de gluconato e desistir.
  • Fazer insulina sem glicose, ou com glicose e sem dextro.
  • Usar salbutamol sozinho.
  • Fazer bicarbonato sem acidose metabólica.
  • Passar cálcio e bicarbonato na mesma via.
  • Tratar resina como droga de emergência, ou associar sorbitol.
  • Corrigir o potássio e não dosar de novo.

Resumo de bolso

  1. Potássio ≥ 6,0: ECG na hora. Alterou o ECG, é emergência.
  2. Cálcio protege, não baixa. Diretriz: 30 mL de gluconato 10% em 10 min. Eu: 1 ampola lenta, reavalio em 3 a 5 min, repito até reverter.
  3. Insulina regular 10 UI + 25 g de glicose é a principal arma para deslocar o potássio. Salbutamol só como adjuvante.
  4. Dextro seriado por 6 horas. Glicemia pré < 126 mg/dL: glicose 10% a 50 mL/h por 5 horas.
  5. Bicarbonato só com acidose metabólica. Troca H⁺/K⁺ tem efeito pequeno sem acidose.
  6. Tire do corpo: ciclossilicato de zircônio, furosemida se diurese, diálise quando indicado. Resina não é emergência e não combina com sorbitol.
  7. Meça de novo: potássio em 1, 2, 4, 6 e 24 horas.

Quer dominar o plantão de verdade?

Hipercalemia é um daqueles temas que separam o plantonista que “sabe a teoria” do que resolve o paciente às 3 da manhã, com a gasometria na mão e o monitor apitando.

É exatamente isso que a gente treina na Comunidade Arkamed: discussão de casos reais, aulas sobre distúrbios eletrolíticos e ácido-base, e médicos que vivem o mesmo plantão que você trocando conduta de verdade. Se você quer ser o médico que a equipe procura quando o caso complica, esse é o seu lugar.


Referências

  • Alfonzo A, Harrison A, Baines R, Chu A, Mann S, MacRury M. Clinical Practice Guidelines: Management of Hyperkalaemia in Adults. UK Kidney Association, outubro de 2023.
  • Conway R, Creagh D, Byrne DG, O’Riordan D, Silke B. Serum potassium levels as an outcome determinant in acute medical admissions. Clin Med (Lond). 2015;15(3):239-243.
  • Norfolk and Norwich University Hospitals NHS Foundation Trust. A Clinical Guideline for the Management of Hyperkalaemia in Adults (JCG0020, v6), 2024.
  • Jessen MK, Andersen LW, Djakow J, et al. Pharmacological Interventions for the Acute Treatment of Hyperkalaemia: A Systematic Review and Meta-analysis. Resuscitation. 2025;208:110489.
  • European Resuscitation Council. Special Circumstances in Resuscitation Guidelines 2025. Resuscitation. 2025.
  • Shibata S, Uchida S. Hyperkalemia in patients undergoing hemodialysis: Its pathophysiology and management. Ther Apher Dial. 2022;26(1):3-14.
  • Bula aprovada pelo FDA: Kayexalate (poliestirenossulfonato de sódio), revisão 07/2017.
  • Bula aprovada pelo FDA: Lokelma (ciclossilicato de zircônio sódico).

As doses citadas seguem diretrizes e bulas referenciadas. Confira sempre a bula aprovada pela ANVISA e o protocolo da sua instituição antes de prescrever.

Veja também:

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